A indústria europeia de reciclagem de plásticos está interrompendo suas atividades devido à crise econômica derivada da Covid-19. Foi assim que a Associação Europeia de Recicladores de Plásticos (Plastics Recyclers Europe - PRE) se pronunciou na semana passada, apontando como principais motivos a falta de demanda devido à redução dos preços do material virgem e à dificuldade de captação de material reciclável por causa da política de isolamento praticada por muitos países para conter o avanço da pandemia.

"Se a situação persistir e não forem tomadas medidas para remediar o setor, a atividade não será mais lucrativa, o que dificultará o cumprimento das metas de reciclagem da UE e comprometerá a transição para a economia circular com relação aos plásticos", afirmou Ton Emans, presidente da PRE, acrescentando que as piores consequências seriam o retorno à prática de deposição em aterros e a incineração dos resíduos plásticos recicláveis, que ocasionariam danos socioeconômicos e ambientais.

A associação alertou a União Europeia e seus estados-membros para a necessidade de apoiar a reciclagem de plásticos e promover também medidas para a implementação de uma economia circular. Antes da pandemia o setor vinha apresentando bons índices de crescimento na Europa, movimentando cerca de 3 bilhões de euros anuais, com mais de 500 companhias empregando mais de 18.000 funcionários.


 

Brasil na mesma rota, com números mais alarmantes

Um alerta quase igualmente dramático poderia ser lançado no Brasil. De acordo com informações da Câmara Nacional dos Recicladores de Plásticos (CNRPLAS), da Abiplast, os recicladores brasileiros já vinham trabalhando com índices de ociosidade em torno de 30% antes da pandemia. Esse número hoje está entre 50% e 60%, movido pela tríade de variáveis em queda: volume de resíduos disponíveis, demanda por material reciclado e preço da resina virgem.

De acordo com Ricardo Hajaj, coordenador da CNRPLAS, a situação só não é mais crítica devido à atual alta do dólar, que rege o mercado internacional de commodities e impede que o preço da resina virgem caia ainda mais neste momento.

Atualmente a CNRPLAS estima em 1.100 o número de recicladores de plásticos no Brasil, representando em torno de 20 mil postos diretos de trabalho. Considerando-se o universo dos catadores e das cooperativas, para cada um desses postos oficiais há outros trinta na cadeia, o que significa de 500 mil a 600 mil pessoas que vivem da reciclagem, além de 30 a 40% dessa cifra compostos por empregos indiretos de nível administrativo, de suporte, logística, jurídico etc. Ou seja, o impacto da pandemia no segmento pode se estender para até 840 mil pessoas.

Ainda de acordo com o coordenador, o setor já possuía uma agenda intensa de atividades junto à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal, via Confederação Nacional da Indústria (CNI), voltada à redução da carga tributária prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). “A reciclagem hoje sofre dupla tributação e é desincentivada pelos impostos em cascata”, afirmou.

Cálculos preliminares apontam que ao abir mão de R$ 1,2 bilhão de arrecadação, a União poderia obter um retorno em torno de R$ 2,1 bilhões, ocasionado pelo incremento dos volumes movimentados na cadeia, investimentos no aumento do valor agregado dos materiais, além dos ganhos ambientais e socioeconômicos advindos da geração de emprego e renda. “Isso levando-se em conta apenas o crédito presumido de 50% na entrada do resíduo na cadeia”, explicou Hajaj. Este é hoje o principal tópico na agenda da Rede de Cooperação para o Plástico, organizada em 2018 dentro da Abiplast, mobilizando vários elos da cadeia em torno de propostas de promoção da economia circular no segmento.

Um ponto que favorece a atividade de reciclagem no Brasil atualmente é o fato de algumas marcas (brand owners) já contarem com ações visando à inserção do reciclado em suas cadeias de valor de maneira formal, assumindo compromissos de médio e longo prazo em torno de uma agenda global de engajamento em políticas de sustentabilidade. Essa rede mais sólida acaba agregando os recicladores que já possuem certificado de qualidade para os seus produtos, o que favorece a homologação em empresas com atuação global.


 

Risco real para os pequenos

Porém, para os pequenos recicladores o risco é iminente, e muitos já enfrentam grandes dificuldades devido à interrupção das atividades de coleta devido ao isolamento, à escassez de EPI’s adequados para o trabalho de seus colaboradores e também ao fato de muitas prefeituras estarem suspendendo contratos com cooperativas de catadores.

A perspectiva de retomada da economia pode reverter esses problemas nos próximos meses, impulsionada inclusive pelo aumento da oferta de resíduos plásticos em razão da permanência das pessoas em casa, o que tem estimulado o consumo de embalagens de produtos de limpeza, sacolas de supermercados, sacos de lixo e uma infinidade de descartáveis usados no acondicionamento de comida para entrega. Se o consumo se equilibrar na outra ponta, o setor poderá se estabilizar. A incógnita, porém, está relacionada ao comportamento do consumo diante da redução do nível de emprego e renda, das oscilações do câmbio e do mercado de petróleo. Um conjunto de fatores totalmente fora do controle das empresas e mesmo dos governos.


 

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