Por Mark Victory e Matt Tudball, editores sênior do ICIS (Independent Commodity Intelligence Services)


A preocupação com o impacto a longo prazo do surto de Covid-19 nos principais mercados europeus de reciclagem aumentou acentuadamente na última semana, após a adoção de medidas adicionais de contenção em todo o continente. Recicladoras estão particularmente preocupadas com os baixos volumes que entram nos sistemas de coleta, interrupções logísticas, redução potencial de demanda em setores que não estão ligados a embalagens, compradores que abandonam as medidas de sustentabilidade e com a redução do investimento necessário a longo prazo.

 

Preço mensal do PP reciclado em grânulos menos o preço spot do PP virgemAté pouco tempo atrás, as preocupações no setor de reciclagem estavam limitadas apenas ao impacto nos preços das resinas virgens – com as quais o material reciclado concorre  e no relacionamento com clientes individuais em países como a Itália. O coronavírus teve um grande impacto no mercado de produtos petroquímicos, dificultando o funcionamento das cadeias de suprimento globais, alterando os padrões de demanda do consumidor e provocando grandes oscilações nos mercados. Ao mesmo tempo, o petróleo caiu em decorrência da guerra de preços entre a Arábia Saudita e a Rússia que também está sendo sentida nos mercados de plásticos virgens em toda a Europa.

 

Enquanto isso, em geral, os mercados de reciclagem vinham negociando normalmente, embora com alguma cautela adicional do comprador. Isso, no entanto, está começando a mudar. Fontes no mercado de PET reciclado (R-PET) o plástico mais amplamente reciclado da Europa já estão vendo uma mudança no comportamento do consumidor, principalmente em relação aos hábitos de compra e, mais do que isso, aos hábitos de reciclagem.

 

"As pessoas estão comprando água engarrafada e não trazem a garrafa de volta, mas a armazenam", queixou-se um reciclador alemão. A demanda por PET virgem já aumentou significativamente em março, quando os europeus começaram a ter um comportamento de pânico na compra de alimentos e outros gêneros de primeira necessidade. “Por um lado, é um efeito sazonal normal em fevereiro e março  é inverno, então as pessoas consomem menos bebidas engarrafadas. Por outro lado, as compras aumentaram muito, então os consumidores armazenam garrafas em casa, e alguns mudam para o vidro”, acrescentou o reciclador.

 

Na Alemanha, que possui um dos esquemas de devolução de embalagens mais estabelecidos da Europa, onde os consumidores devolvem suas garrafas PET usadas por meio de máquinas de venda reversa instaladas em lojas, os recicladores estão esperando para avaliar o impacto do distanciamento social e do isolamento sobre as suas atividades.

 

Variação do preço do PETUma questão é como as garrafas PET usadas são devolvidas ao fluxo de reciclagem durante o surto, uma vez que a disponibilidade de garrafas pós-consumo já é pequena devido à queda mencionada anteriormente. Também é provável que haja algum efeito sobre as tendências sazonais associadas ao consumo de bebidas engarrafadas. Se o distanciamento social ainda estiver em vigor durante o verão, as pessoas podem não sair tanto, resultando em menor disponibilidade de R-PET. Alguns disseram que o coronavírus pode levar mais pessoas a procurar água da torneira ou usar garrafas de vidro, em vez de plástico.

 

Espera-se uma tendência semelhante, de redução das taxas de coleta em outros setores importantes de polímeros reciclados, como PE e PP. "Estimamos que teremos menos material entrando em nossas instalações nas próximas semanas", afirmou um grande coletor e reprocessador de resíduos francês.

 

A redução das taxas de coleta normalmente levam várias semanas para serem sentidas no mercado devido ao tempo que leva para o material pós-consumidor ou pós-industrial percorrer a cadeia. Isso significa que qualquer escassez provavelmente será sentida durante o que normalmente seria o início da alta temporada de R-PET e poliolefinas recicladas (R-PO). No entanto, dada a incerteza da demanda, é pouco provável que a alta temporada de 2020 apresente ritmo normal.

 

O impacto na demanda por poliolefinas recicladas provavelmente virá do mercado de uso final, que inclui o automotivo, de construção civil, sacos de lixo, móveis para exterior e embalagens. A demanda automotiva já caiu acentuadamente por causa do surto e é provável que caia ainda mais após o fechamento temporário de fabricantes de automóveis em toda a Europa.

 

A indústria da construção civil está mais protegida de qualquer impacto direto na produção causado pela Covid-19, mas provavelmente será fortemente afetado por qualquer desaceleração econômica. Enquanto isso, a demanda por móveis para ambientes externos também sofrerá devido às medidas de isolamento.

 

Por outro lado, a demanda por embalagens deve aumentar. Espera-se que os compradores favoreçam alimentos embalados em plástico, motivados por preocupações de higiene e devido ao uso amplo de poliolefinas em embalagens para produtos de limpeza e higiene. No entanto, a extensão em que isso beneficiará a indústria de reciclagem permanece incerta. Várias fontes sugerem que a pandemia desviará o foco das metas de sustentabilidade no curto prazo. Espera-se também que algumas marcas se voltem para o material virgem, que pode estar mais facilmente disponível.

 

O preço mais elevado de produtos como flakes de R-PET incolor e granulados de grau alimentício, do R-PEAD e do R-PP poderão favorecer este retorno à resina virgem. "Na situação atual, quem não conseguir encontrar PE reciclado vai usar o virgem para poder fornecer seus produtos", disse um grande fabricante de embalagens.

 

Juntamente com isso, existem preocupações sobre a escassez de pessoal à medida que a pandemia avança, e a capacidade de pequenos recicladores gerenciarem o fluxo de caixa se não puderem operar por um período prolongado de tempo. As reservas de caixa dos recicladores são geralmente mantidas baixas em comparação com a indústria petroquímica.

 

Também preocupante é o impacto na logística. Como vários países da Europa fecharam suas fronteiras e restringiram o movimento de mercadorias e pessoas, o transporte de material entre as unidades de reciclagem já está sendo um desafio para alguns. “Vemos problemas em relação à logística, incluindo desde a entrega das garrafas até a entrega de nossos produtos acabados. Existem algumas fronteiras fechadas, mas com foco principalmente nas pessoas, e não no transporte de mercadorias. Verifica-se a temperatura dos motoristas nas fronteiras, provocando atraso nas atividades de transporte”, afirmou um reciclador.

 

Em todo o setor de reciclagem, são comuns os fluxos comerciais entre países europeus, tanto em relação a resíduos pós-consumo quanto pós-industrial, dependendo da disponibilidade e da qualidade e os flakes reciclados também circulam comumente entre fronteiras. "No momento, a logística é muito difícil na Europa; não se sabe o que isso vai significar no final, pois afetará o uso dos produtos", disse um produtor de flakes. Os problemas de logística já estão fazendo com que algumas empresas constituam estoques para gerenciar qualquer possível interrupção. “Compramos grandes quantidades da França, Holanda e Itália e, quando as fronteiras se fecham completamente, há um grande problema: como podemos obter nosso material? Além disso, 50% de nosso produto final sai da Alemanha para a Europa e nossos clientes nos perguntam se somos capazes de entregar o material de que precisam, se precisamos reduzir a produção. Quando pedimos transporte para nossas plantas, eles dizem que não há problema. No momento parece ser estável, mas a questão é o que acontecerá amanhã, quando o governo tomar a decisão de fechar a fronteira”, afirmou um importante reciclador europeu. A incerteza contínua sobre a ampla gama de respostas dos governos europeus à pandemia obscureceu ainda mais a demanda enquanto alguns estão armazenando, outros estão adotando a abordagem oposta e evitando novos pedidos. “Temos pedidos, mas não novos pedidos para as próximas semanas, pois há uma grande confusão prevista”, disse o principal coletor e reprocessador francês.

 

O impacto a longo prazo nas decisões de investimento também permanece incerto. O investimento na reciclagem mecânica e química é vital para que o setor atinja metas legislativas e de muitas marcas em relação à reciclagem de embalagens. Atualmente, existe uma severa escassez de material de grau alimentício em todos os polímeros reciclados no lado da coleta e do reprocessamento.

 

A capacidade de reprocessamento de flakes de R-PET para alimentos é de 300.000 toneladas/ano, enquanto para o R-PEAD reciclado é de cerca de 100.000 toneladas/ano. Para outras classes de R-PO, o material de grau alimentício está disponível apenas em volumes muito pequenos devido aos requisitos da Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) quanto à rastreabilidade e classificação.

 

Novas tecnologias, novos métodos de coleta, crescimento da reciclagem de produtos químicos e aumento da capacidade de reprocessamento são ações necessárias para atingir as metas de 2025. No entanto, uma perspectiva econômica mais fraca está tendo um efeito limitador no investimento, particularmente em áreas como a reciclagem, onde o investimento de pequenas empresas iniciantes é comum e onde os sistemas de coleta permanecem em grande parte sob o controle das empresas locais. Ambos são vulneráveis na situação atual.

 

As consequências econômicas da recessão global de 2008, por exemplo, resultaram em mais de uma década de subinvestimento em sistemas de coleta pelas autoridades locais devido a medidas de austeridade generalizadas em toda a Europa. Com a escala das medidas de distanciamento social necessárias para a contenção da pandemia, uma recessão global parece cada vez mais provável.

 

Por enquanto, a maioria da indústria europeia de reciclagem continua operando, mas as conseqüências poderão ser sentidas nos próximos anos.

 

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