A viabilidade comercial de poliolefinas recicladas mecanicamente (rPO) para uso em embalagens de alimentos foi analisada pelo especialista em reciclagem Sam Lovatt, da consultoria ICIS, e por Ed Kosior, CEO da Nextek (ambas do Reino Unido), diante das novas exigências globais de sustentabilidade para o setor de embalagens, que atingem igualmente o mercado brasileiro desde a promulgação do Decreto 12.688/2025, o chamado Decreto dos Plásticos.

 

Essa movimentação técnica de mercado é uma resposta direta à meta regulatória europeia Packaging and Packaging Waste Regulation (PPWR), que exige a incorporação de 10% de plástico reciclado em embalagens, incluindo as que têm contato com alimentos, até 2030. O avanço da tecnologia de reciclagem será fundamental para o desenvolvimento de alternativas de reciclagem mecânica competitivas frente à reciclagem química para atender aos rigorosos critérios de pureza dos materiais reciclados para a fabricação de novas embalagens.


Os analistas apontam que, diferente do ecossistema consolidado do poli(tereftalato de etileno) (PET), a descontaminação de poliolefinas como o polipropileno (PP) e o polietileno de alta densidade (PEAD) apresenta restrições por se tratar de materiais quimicamente permeáveis, que retêm compostos voláteis e odores dos insumos originais.


Além disso, o fluxo de descarte do PP é composto majoritariamente por potes, bandejas e filmes flexíveis, e não por garrafas, demandando metodologias de processamento distintas. Para superar tais barreiras, a Nextek (Reino Unido) desenvolveu as tecnologias Nextloopp, que purifica plásticos rígidos por difusão térmica em unidades modulares com capacidade para até 2 toneladas por hora, e a COtooClean, que utiliza CO2 em estado supercrítico como solvente para descontaminar filmes flexíveis. Ambas integram a lista de tecnologias emergentes sob monitoramento da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA).

 

A introdução da inteligência artificial na etapa de triagem de resíduos consolidou-se como o principal elemento de viabilidade econômica para o polipropileno reciclado (rPP) de grau alimentício, substituindo os dispendiosos marcadores fluorescentes aplicados em tentativas anteriores. Os algoritmos de IA são treinados para separar embalagens que continham alimentos daquelas utilizadas para produtos não alimentícios (como detergentes, no caso do fluxo de PEAD), garantindo a pureza necessária do fluxo de alimentação. Embora o custo de produção do grânulo de rPP descontaminado seja cerca de 25% superior ao do polímero convencional para fins não alimentícios, o valor de mercado desse material purificado gera margens de retorno significativamente maiores para os recicladores, justificando o investimento na automação da infraestrutura.

 

A expectativa do mercado aponta para uma aceleração dos investimentos em plantas de reciclagem mecânica de PP específicas para alimentos à medida que os prazos legais se aproximam. Os analistas da ICIS estimam que o mercado europeu demandará 400 mil toneladas de poliolefinas recicladas purificadas para mantera conformidade com as diretrizes regulatórias.

 

Embora a reciclagem química ainda seja cotada para absorver grande parte desse volume no curto prazo, o amadurecimento de processos mecânicos de descontaminação deve descentralizar o fornecimento de resinas de alta pureza, a exemplo da evolução técnica e da maturidade de mercado observadas na reciclagem de garrafas plásticas de PET.


 

Imagem: Shutterstock

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