O Brasil começa a organizar o uso de gêmeos digitais com a recente publicação da norma ABNT NBR ISO/IEC 3173, que estabelece um vocabulário comum para o setor e define formalmente o conceito de gêmeo digital como a representação digital de um ativo físico conectada por dados e sincronização contínua entre os mundos físico e virtual.

 

O tema foi debatido em um evento online promovido pela Associação Brasileira de Internet das Coisas (Abinc), que lidera a tradução e adaptação de padrões internacionais para o País. A iniciativa busca reduzir divergências conceituais e acelerar a maturidade do mercado nacional.

 

Para Bruno Medina, especialista na área e líder do grupo técnico da Abinc, essa padronização era necessária diante da diversidade de interpretações existentes no mercado. “Diferentes organizações adotam definições que não se batem. A norma vem para dar essa base, para que todo mundo possa falar na mesma língua e reduzir ambiguidades”, explicou.

 

Segundo Medina, o documento tem caráter conceitual e não prescritivo. “A norma é uma bússola conceitual, não é um manual de como implementar. Ela traz conceitos fundamentais e terminologia, mas não prescreve arquitetura nem tecnologias específicas”, afirmou. Ele ressaltou que a ideia é criar um ponto de partida comum para projetos, evitando confusão entre gêmeos digitais, modelos digitais estáticos, simulações ou simples visualizações tridimensionais, que não possuem conexão dinâmica com ativos reais.

 

Um dos pontos centrais discutidos foi a relação direta entre gêmeos digitais e Internet das Coisas (IoT). Sensores conectados capturam dados do ambiente físico, permitindo que a representação digital acompanhe o comportamento real do ativo ao longo do tempo. “Nós não podemos pensar em gêmeos digitais sem essa base do IoT”, afirmou o presidente da Abinc, Rogério Moreira (foto), destacando que a tecnologia viabiliza desde monitoramento industrial até aplicações urbanas e energéticas.

 

Os especialistas explicaram que um gêmeo digital envolve a integração de diferentes elementos, como a entidade física monitorada, a representação digital estruturada, fluxos contínuos de dados confiáveis e um vínculo consistente entre os dois ambientes. Esses dados podem ser usados para manutenção preditiva, otimização operacional, simulações e suporte à tomada de decisão estratégica.

 

No setor de transformação de plásticos, por exemplo, os gêmeos digitais podem simular o funcionamento de injetoras, otimizando projetos, evitando desperdício de material e reduzindo custos de produção. Podem atuar também na criação de protótipos virtuais para validação de peças plásticas, acelerando ciclos e garantindo qualidade consistente. Com a norma, as empresas brasileiras ganham base ainda para a manutenção preditiva de máquinas e moldes, integrando IoT e monitoramento em tempo real.

 

A ABINC informou ainda que novas normas estão em processo de tradução e adaptação, incluindo diretrizes para documentação de casos de uso e análise de aplicações práticas. A expectativa é consolidar uma base regulatória capaz de posicionar o Brasil com maior competitividade no cenário global de IoT, inteligência artificial e digitalização industrial. “Esse é um mercado que pode chegar a 110 bilhões de dólares em 2028. Nós estamos querendo explorar mais esse tema porque ele tem uma relação muito forte com Internet das Coisas (IoT)”, afirmou Moreira.


 

Imagens: Abinc


 

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