A ABNT NBR ISO/IEC 17025 é frequentemente citada como a “norma dos laboratórios”, mas essa definição simplificada esconde sua verdadeira importância. Mais do que um conjunto de regras administrativas, ela é o instrumen
to que transforma medições em evidências técnicas confiáveis.
Laboratórios geram evidências e esse ponto é frequentemente negligenciado em inúmeras empresas: a visão estratégica de empresas com seus respectivos laboratórios (internos ou externos) é ferramenta essencial para a competitividade. Processos devidamente documentados, decisões industriais, disputas contratuais, custos de garantia e aprovações regulatórias dependem de números. A ISO/IEC 17025 define o que faz esses números serem aceitos como tecnicamente válidos.
Um dos pilares centrais da norma é a noção de rastreabilidade metrológica, que conecta cada resultado de ensaio a padrões reconhecidos, por meio de uma cadeia ininterrupta de calibrações. Esse conceito é alinhado ao Vocabulário Internacional de Metrologia (estabelecido pela ISO/IEC Guide 99), que define termos como “mensurando”, “erro”, “exatidão”, “precisão” e “incerteza”. A ISO/IEC 17025 exige que o laboratório compreenda e aplique corretamente essas definições, pois sem elas não há como interpretar resultados de forma científica.
Outro elemento crítico da norma é a exigência de avaliação da incerteza de medição. Esse requisito se baseia no Guia para a Expressão da Incerteza de Medição, o conhecido GUM (ISO/IEC Guide 98-3), que define como identificar fontes de incerteza, quantificá-las e combiná-las por meio de modelos matemáticos. Em termos práticos, isso significa que um resultado não é apenas um número, mas um intervalo dentro do qual o valor verdadeiro provavelmente se encontra. Além disso, no dia a dia ainda há uma carência no entendimento correto de termos como “incerteza de medição”, “variância”, “desvio padrão” e “intervalo de confiança”, entre outros.
A ISO/IEC 17025 também exige o uso sistemático de ferramentas estatísticas para controle da qualidade. Nesse sentido, a família de normas ISO 7870 é frequentemente usada para monitorar a estabilidade de processos analíticos, contendo ainda referências normativas que auxiliam na interpretação e utilização da norma como, por exemplo, a ISO 3534. No tratamento de dados, a ISO/IEC 17025 dialoga diretamente com a ISO 5725, que define os conceitos de repetibilidade e reprodutibilidade. Esses parâmetros permitem avaliar se a variabilidade observada nos resultados está dentro do esperado. Quando um laboratório realiza medições repetidas de um polímero e observa uma dispersão maior do que a prevista para o método, isso indica uma não conformidade que deve ser investigada.
Além disso, a norma exige validação de métodos, o que frequentemente envolve modelos estatísticos como análise de regressão, testes de linearidade, avaliação de viés e estudos de robustez. Normas como a ISO 8466, que trata de calibração e avaliação de métodos analíticos, e a ISO 11095, que aborda regressão linear, são frequentemente usadas nesse contexto. Esses modelos garantem que a relação entre sinal e concentração seja estatisticamente válida, relevante para técnicas de FTIR, cromatografia e ICP-OES.
Na prática industrial, a ISO/IEC 17025 funciona como um filtro de credibilidade. Um laboratório pode ter equipamentos modernos, mas sem controle estatístico, rastreabilidade e avaliação de incerteza, seus resultados não podem ser comparados globalmente. Para fabricantes de polímeros, montadoras e certificadoras, um laudo acreditado significa que aquele dado foi produzido dentro de um sistema que controla variabilidade, quantifica incerteza e aplica estatística de forma rigorosa. A dica de ouro é: não preencha apenas papel para passar nas auditorias. Assim, a ISO/IEC 17025 não é apenas uma norma de gestão. Ela é um sistema técnico que integra metrologia, estatística e ciência dos materiais para transformar medições em decisões confiáveis.
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(*)Alan Bonel é especialista em polímeros e atua há mais de 15 anos com foco em normas técnicas nacionais e internacionais, especialmente nas áreas de ensaios, laboratório e requisitos de montadoras. Compartilha conteúdos técnicos no LinkedIn e no canal do YouTube @bonelsimplificando.
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