Por Alan Bonel(*)



Na indústria moderna, quase tudo começa e termina com um número, um valor, um resultado. Por um lado, há uma expectativa de quem aplica e utiliza o valor medido de uma propriedade. Por outro, a credibilidade de quem mede e informa esse tal valor.

 

Um valor de resistência mecânica define se uma peça pode ser usada em um sistema crítico. Um teor de contaminantes decide se um lote pode ser exportado. Um índice de fluidez pode mudar toda uma estratégia de processamento.


Por trás de cada um desses números existe um laboratório, e por trás de cada laboratório deve – ou deveria – existir uma pergunta fundamental: quão confiáveis são os resultados produzidos? A ABNT NBR ISO/IEC 17043 foi criada justamente para responder a essa questão. Essa norma estabelece os requisitos para os chamados provedores de ensaios de proficiência, que são as organizações responsáveis por avaliar o desempenho dos laboratórios.


Funciona como uma prova técnica: um provedor distribui a mesma amostra para vários laboratórios, cada um realiza o ensaio de forma independente e os resultados são reunidos e analisados estatisticamente. Com base nessa análise, cada laboratório recebe uma avaliação objetiva do seu desempenho em relação a um valor de referência. O que diferencia um ensaio de proficiência de uma simples troca de resultados é exatamente o conjunto de regras técnicas, estatísticas e organizacionais imposto pela ISO/IEC 17043.


A norma define como as amostras devem ser preparadas, verificadas quanto à homogeneidade e à estabilidade, embaladas e distribuídas. Uma amostra que não seja homogênea, por exemplo, pode fazer dois laboratórios tecnicamente competentes parecerem inconsistentes.


A ISO/IEC 17043 exige que esse risco seja controlado e documentado. Além disso, a norma impõe critérios rigorosos para o tratamento estatístico dos dados, evitando interpretações arbitrárias e garantindo que os desvios observados sejam avaliados de forma justa e tecnicamente válida.


Outro ponto central da ISO/IEC 17043 é a imparcialidade. O provedor de ensaio de proficiência não pode ter interesse no resultado dos participantes. Ele deve atuar como uma entidade independente, cuja única função é avaliar o desempenho de forma objetiva. Isso é particularmente importante em setores industriais altamente competitivos, em que resultados laboratoriais podem ter impacto comercial direto.


Na prática, a ISO/IEC 17043 é um dos pilares do sistema de acreditação. Laboratórios acreditados segundo a ISO/IEC 17025 precisam demonstrar, continuamente, que seus resultados são comparáveis aos de outros laboratórios competentes. A forma mais direta de fazer isso é pela participação regular em ensaios de proficiência organizados por provedores que operam conforme a ISO/IEC 17043. Assim, a norma cria um elo técnico entre a competência declarada do laboratório e seu desempenho real.


No setor de polímeros, essa dinâmica é especialmente crítica. Ensaios como índice de fluidez, resistência ao impacto, HDT, Vicat, FTIR, DSC ou teor de cargas são sensíveis a detalhes de preparação de amostras, calibração de equipamentos e interpretação de dados.


Dois laboratórios podem seguir a mesma norma de ensaio e ainda assim obter resultados significativamente diferentes. É aquela problemática que assola o dia a dia de muitas empresas e quem trabalha diretamente com isso conhece muito bem.


Questionamentos constantes sobre o procedimento utilizado; sobre se as diferenças são ou não significativas; sobre quando dois valores podem ser considerados equivalentes ou não; e se aquele valor é real ou não. O ensaio de proficiência revela se essas diferenças estão dentro da variabilidade esperada ou se indicam falhas que precisam ser corrigidas.


Além de avaliar laboratórios, a ISO/IEC 17043 protege o mercado contra práticas enganosas. Um provedor de proficiência não pode simplesmente compilar números e emitir certificados. Ele precisa demonstrar competência técnica, domínio de estatística, infraestrutura adequada e procedimentos documentados.


Para clientes, organismos de acreditação e reguladores, isso significa que um relatório de proficiência tem peso técnico real, e não apenas simbólico. A norma garante que a avaliação dos laboratórios seja tão confiável quanto os próprios resultados que eles produzem. Ela não mede materiais, mas mede algo ainda mais valioso: a credibilidade de quem mede.


Saiba mais sobre normas para o setor de plásticos acompanhando a seção Normas, no portal da Plástico Industrial.

 

(*)Alan Bonel é especialista em polímeros e atua há mais de 15 anos com foco em normas técnicas nacionais e internacionais, especialmente nas áreas de ensaios, laboratório e requisitos de montadoras. Compartilha conteúdos técnicos no LinkedIn e no canal do YouTube @bonelsimplificando.


 

 

 

 

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Imagem: Freepik.

 

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