Hellen Souza, da redação
Com o avanço das restrições regulatórias ao redor do mundo, especialmente na União Europeia, muitos desenvolvedores de aditivos para plásticos têm anunciado versões de seus produtos “livres de PFAS (PFAS-free)”. Mas, afinal, o que são os PFAS e qual a relação da indústria de transformação de plásti
cos com este insumo que está em vias de ser banido das formulações usadas para fabricar diversos tipos de produtos?
As substâncias per- e polifluoroalquiladas (PFAS) compõem uma classe com mais de 4.000 compostos caracterizados quimicamente por arranjos contendo fortes ligações carbono-flúor (organofluorados). Esses materiais têm sido denominados "químicos eternos", em decorrência da alta persistência dessas cadeias, que resistem à degradação natural e tendem à bioacumulação no meio ambiente.
Na indústria de transformação de plásticos, os PFAS estão presentes principalmente na forma de aditivos auxiliares de processo (PPAs, na sigla em inglês para polymer processing agent). Formulações baseadas nesses compostos são empregadas no processamento de diversas resinas termoplásticas. Esses aditivos atuam reduzindo o cisalhamento, prevenindo a fratura do material fundido e estabilizando a pressão do equipamento de transformação.
Além da atuação como aditivos fabris, os próprios fluoropolímeros — tais como o politetrafluoroetileno (PTFE), o fluoreto de polivinilideno (PVDF) e o etileno-tetrafluoroetileno (ETFE) — enquadram-se na definição química de PFAS. Por sua estabilidade sob temperaturas elevadas e em meios quimicamente agressivos, essas resinas de engenharia são especificadas na fabricação de revestimentos anticorrosivos, vedações técnicas, conexões para a indústria de processos e isolamentos elétricos de alto desempenho.
A presença dessas substâncias também se estende aos insumos operacionais e de acabamento, como alguns agentes desmoldantes. No segmento de embalagens, elas têm histórico de aplicação como agentes de barreira contra gordura e umidade em papéis plastificados e filmes multicamada destinados ao contato com alimentos. Além disso, podem ser encontrados na composição de aditivos retardantes de chama e na formulação de certos masterbatches e pigmentos, atuando para facilitar a dispersão dos colorantes na matriz polimérica.
Embora essa família de compostos tenha estado presentes nas formulações poliméricas por muito tempo, o avanço das regulamentações ambientais internacionais, liderado pela Agência Europeia de Substâncias Químicas (ECHA) e pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), vem acelerando o seu banimento em razão de análises que comprovam o seu acúmulo no organismo humano e no meio ambiente. Essa exposição a longo prazo pode ter efeitos nocivos à saúde, muitos deles ainda não determinados(2). Assim, em breve os transformadores precisarão desenvolver alternativas isentas de PFAS para os materiais que empregam em seus produtos, especialmente no setor de embalagens.
Karina Daruich, engenheira de materiais e consultora de negócios para o setor de polímeros, alerta que “em decorrência do banimentos europeus vigentes para plásticos em contato com alimentos, as revisões normativas locais já começaram a ser desenhadas pela Anvisa, o que pode afetar a indústria de transformação a curto prazo, visto que empresas globais já estão exigindo de seus convertedores locais laudos e declarações de conformidade PFAS-free para todas as linhas de embalagem, antecipando-se a futuras leis nacionais, com efeito imediato no setor exportador”. Essa mudança poderá implicar custos adicionais, tendo em vista que os aditivos livres de PFAS podem ser de 15 a 25% mais caros, dependendo do processo e da dosagem.
Ainda que impliquem mais uma preocupação para o transformador, os produtos livres de PFAS também podem ser uma oportunidade. Pesquisa da consultoria global Markets and Markets estima que o mercado de produtos livres de PFAS aumente de US$ 55 bilhões em 2024 para US$ 75,3 bilhões em 2029, a uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 6,5%(3). E entre os setores usuários potenciais estão não apenas o segmento de embalagens, mas também o de eletroeletrônicos e de semicondutores.
Algumas empresas e formuladores globais de aditivos já oferecem alternativas PFAS-free desenvolvidas para garantir o mesmo desempenho e propriedades para os materiais plásticos. São elas Ampacet , Tosaf, Gabriel-Chemie, Clariant e Songwon.
Referências:
1) ACAYABA, Rafael D'Anna; SILVA, Nanci Castanha. Analisando os PFAS: riscos, desafios e perspectivas. Informativo CETEA: Boletim de Tecnologia e Desenvolvimento de Embalagens, v. 37, n. 2, 2025.
2) UNITED STATES ENVIRONMENTAL PROTECTION AGENCY (EPA). Our Current Understanding of the Human Health and Environmental Risks of PFAS. EPA, [s. d.]. Disponível em: https://www.epa.gov/pfas/our-current-understanding-human-health-and-environmental-risks-pfas. Acesso em: 18/8/2026.
3) MARKETSANDMARKETS. PFAS & PFAS Alternatives Market. MarketsandMarkets, 2026. Disponível em: https://www.marketsandmarkets.com/Market-Reports/pfas-alternatives-market-257468232.html. Acesso em: 18/8/2026.
Imagem: weart432/Shutterstock
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