Por Alan Bonel(*)
A normalização técnica sempre teve um papel central na organização dos mercados industriais. Normas definem requisitos, padronizam métodos de ensaio, estabelecem terminologias e permitem que empresas que nunca trabalharam juntas consigam, ainda assim, produzir, comprar e especificar materiais com base em uma linguagem comum. No setor de plásticos, essa lógica é particularmente importante, já que pequenas variações de composição ou processamento podem resultar em diferenças significativas de desempenho.
É nesse contexto que surgem os chamados Data Quality Levels, ou simplesmente DQLs. O conceito aparece de forma estruturada na norma europeia EN 18065, publicada em 2025. A proposta da norma é relativamente simples, mas ao me
smo tempo bastante inovadora: criar um sistema de classificação de plásticos reciclados baseado não apenas em suas propriedades, mas na qualidade dos dados que descrevem essas propriedades.
A ideia central por trás dos DQLs é que, no mercado de materiais reciclados, não basta saber “o que o material é”. Também é fundamental entender “quão confiável é a informação sobre esse material”. Em outras palavras, a norma introduz uma forma estruturada de avaliar a robustez dos dados disponíveis sobre um determinado reciclado, considerando fatores como origem do material, métodos de caracterização utilizados, rastreabilidade da cadeia de reciclagem e nível de verificação das informações declaradas.
Essa abordagem traz um aspecto interessante para o mercado: ela separa claramente duas dimensões que muitas vezes eram confundidas. A primeira é a qualidade do material em si, relacionada às suas propriedades físicas, químicas e mecânicas. A segunda é a qualidade das informações disponíveis sobre esse material. Um reciclado pode apresentar boas propriedades, mas se os dados que descrevem essas propriedades forem limitados ou pouco confiáveis, o nível de qualidade da informação continuará sendo considerado baixo.
Na prática, isso significa que a norma introduz um novo tipo de valor dentro da cadeia de materiais reciclados: o valor da informação. Recicladores que investirem em caracterização laboratorial, controle de processos e rastreabilidade poderão oferecer materiais com níveis mais elevados de qualidade de dados. Esse diferencial tende a se traduzir em maior confiança por parte dos transformadores e, potencialmente, em melhores condições comerciais.
Nesse cenário, os Data Quality Levels funcionam como uma espécie de linguagem comum. Ao associar um determinado nível de qualidade de dados a um material reciclado, torna-se mais fácil compreender o grau de confiabilidade das informações disponíveis, mesmo quando os fornecedores são diferentes ou estão localizados em países distintos. Isso tende a facilitar tanto a negociação técnica quanto a gestão de riscos em projetos que envolvam o uso de reciclados.
Do ponto de vista da indústria de transformação, a adoção de conceitos como os DQLs pode representar um avanço significativo na forma de especificar materiais. Em vez de depender exclusivamente de fichas técnicas muitas vezes incompletas ou pouco padronizadas, engenheiros e compradores passam a contar com um indicador adicional que ajuda a contextualizar as informações disponíveis.
A contribuição de normas como a EN 18065 vai além da simples padronização técnica. Elas ajudam a estruturar um mercado que ainda está em processo de amadurecimento, criando ferramentas para reduzir incertezas, aumentar a transparência e estimular práticas industriais mais robustas. Em um cenário no qual o uso de plásticos reciclados tende a crescer de forma significativa nos próximos anos, iniciativas desse tipo podem desempenhar um papel importante na construção de uma cadeia de materiais mais confiável, eficiente e sustentável.
Imagem: IA/Gemini
Saiba mais sobre normas para o setor de plásticos acompanhando a seção Normas, no portal da Plástico Industrial.

(*)Alan Bonel é especialista em polímeros e atua há mais de 15 anos com foco em normas técnicas nacionais e internacionais, especialmente nas áreas de ensaios, laboratório e requisitos de montadoras. Compartilha conteúdos técnicos no LinkedIn e no canal do YouTube @bonelsimplificando.
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