Flávio Silva(*)

 

 

Muito se tem dito sobre os efeitos da guerra entre Estados Unidos/Israel e o Irã, e muitas pessoas têm nos consultado sobre este assunto. Aos nossos clientes temos enviado atualizações constantes trazendo o que vem ocorrendo com preços e disponibilidade de produtos. Porém, é interessante também uma breve análise direcionada aos profissionais e empresas que hoje estão vivendo as consequências desse conflito.

 

Como já se sabe, o impacto maior e o pânico no mercado ocorrem muito mais devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz, do que devido à guerra em si. O bloqueio limita o trânsito de produtos e traz escassez aos mercados. Lembram da pandemia?

 

Um evento desta magnitude faz com que surjam especulações já nos primeiros dias. Somente o fato de haver o bloqueio já provoca alta dos preços, mesmo que ainda não ocorra a falta de insumos e o impacto direto nos custos de produção. Em um segundo momento se inicia, de fato, a quebra da cadeia de suprimento e aí sim, a escassez aliada às especulações fazem bastante estrago. Este é o estágio atual deste vento geopolítico. Permanecendo por mais tempo, o bloqueio vai dar margem ao racionamento de insumos e produtos para se tentar manter minimamente a cadeia operando, com os players do mercado já absorvendo impactos de aumentos reais de custo.

 

A Ásia tem uma grande dependência de insumos da cadeia de óleo & gás e petroquímicos do Oriente Médio. Cerca de 45% do petróleo que abastece a região vem de lá, assim como quase 60% da nafta e cerca de 2/3 do polietileno (PE). Ou seja, depois de quatro a cinco dias, já começou a faltar produtos desta cadeia na Ásia.

 

Inclusive, diversas petroquímicas com unidades na Ásia já declararam força maior, condição jurídica que se refere a eventos imprevisíveis e inevitáveis, que estão além do controle das partes envolvidas em um contrato, impedindo uma das partes de cumprir suas obrigações sem que isso seja considerado uma violação de contrato. A consequência tem sido redução da carga operacional e restrição de vendas, como mostram os exemplos da tabela abaixo:

 

Fonte: Sites de empresas e notícias. Consolidação: Ohxide Consultoria.

 

A redução de oferta causa maior disputa pelos produtos e, consequentemente, aumentos de preços. Obviamente, esta especulação já chegou ao Brasil, sobretudo pelo fato de a nossa demanda por resinas ser fortemente abastecida por importações, principalmente de polietileno (PE), polipropileno (PP) e poli(cloreto de vinila) (PVC).

 

Vamos verificar os dados de preços internacionais de forma temporal e observar os aumentos nas últimas semanas no gráfico a seguir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Sites de empresas e notícias. Consolidação: Ohxide Consultoria.

 

Pelo acompanhamento dos preços semanalmente, fica nítido o impacto do confronto nos últimos dias. O primeiro ataque dos Estados Unidos ocorreu dia 28 de fevereiro, com posterior bloqueio do Estreito de Ormuz em 1º de março.

 

Considerando como base 100 a semana do início do ano, a variação de preços dos produtos já chegou a: Brent +35%; Nafta ARA +57%; PP Ásia +38%; PP EUA + 31%; PEAD Ásia +27%; PEAD EUA +28%.

 

As variações do preço médio negociado nas regiões já chegam a quase 90% de aumento, dependendo da resina, se considerarmos picos de preços ofertados. Já foram vistas ofertas de PP homopolímero a US$/t 1.500 CFR (custo e frete) Ásia.

 

E o que vem pela frente?

 

A principal variável a ser considerada hoje é o tempo que irá durar o bloqueio do Estreito de Ormuz. Ainda que isso ocorra de imediato, já há um impacto na cadeia de suprimento. Empresas estão paralisando a produção, portos terão sobrecarga de operações e pedidos com falta de atendimento. Caso o desbloqueio ocorra imediatamente, a situação ainda perdurará por algumas semanas, mas com uma pressão pela redução dos preços.

 

No entanto, se o bloqueio durar mais algumas semanas, uma ruptura na cadeia de suprimento será iminente, obrigando a muito mais empresas a reduzirem suas operações e elevando os preços a níveis exorbitantes. Este impacto ocorrerá inicialmente na Ásia, enquanto as outras regiões tenderão a aumentar sua produção para suprir regiões deficitárias e que pagarão preços bem altos.

 

Estruturalmente, ainda não há falta de produto para o curtíssimo prazo. Porém, com a forte presença de produtos importados no nosso País, isso logo deve ser um problema que pode implicar:

 

- Preços internacionais em alta;

- Fretes internacionais em alta e com menor disponibilidade;

- Dificuldade de importadores em conseguir material de fora;

- Produtores nacionais seguindo o caminho de aumento de preços (já está acontecendo);

- Possível racionalização de vendas (já está acontecendo);

- Braskem pode aumentar seu nível de produção (que esteve baixo nos últimos anos). Porém, deve encontrar dificuldade de importar nafta extra para aumento de produção;

- Aumento do preço do Diesel (a Petrobras anunciou aumento de R$/litro 0,32 nas refinarias).

 

Os produtores nacionais já anunciaram aumentos significativos de preços, da ordem de 10 a 15%, dependendo do produto/grade. O racionamento de material já começa a acontecer, principalmente por parte de traders, pois o receio de não ter material para vender daqui a algumas semanas é real.

 

Neste momento, o dever de casa de cada empresa que consome resina consiste em regular rigorosamente seus estoques, ter uma estratégia de compra e estar atenta às informações de mercado.

 

Dúvidas e sugestões sobre este artigo podem ser enviadas para o mail ohxide@ohxide.com.br.

Se quiser conhecer mais sobre este mercado ou de outras resinas e suas aplicações e ainda ter acesso a uma série de outras informações, entre em contato.

A Ohxide elabora também o Relatório de Preços de Resinas Termoplásticas, uma publicação que cobre dez famílias de produtos (PE, PP, PVC, PET, PS, EVA, elastômeros, ABS/SAN, PA, POM, PBT e a cadeia de reciclagem) em quatro regiões (SP, Sul, NE e AM). Entre em contato (via site ou e-mail) e saiba mais ou acesse o link direto: https://ohxide.com/relatorios-de-preco/.

 

 

*Flávio Silva é sócio-diretor da Ohxide Consultoria (Rio de Janeiro, RJ e Paulínia, SP)


 

Imagens: autor


 

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Leia mais sobre o mercado de resinas na seção Petroquímicos no portal da revista Plástico Industrial.



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