No ambiente técnico dos laboratórios, poucos temas geram tanta confusão quanto os termos acreditação, ensaio interlaboratorial, ensaio intralaboratorial e ensaio de proficiência. Embora pareçam variações de um mesmo conceito, na prática cada um ocupa uma posição distinta dentro do sistema internacional da qualidade. Entender essa diferença não é apenas uma questão de vocabulário, mas um requisito essencial para quem depende de dados laboratoriais para tomar decisões técnicas, regulatórias ou comerciais.

 

A acreditação, conforme a ABNT NBR ISO/IEC 17025, é o reconhecimento formal de que um laboratório é competente para realizar determinados ensaios. Essa competência não se baseia apenas em equipamentos ou em currículos de analistas, mas na existência de um sistema técnico que assegura rastreabilidade metrológica, controle estatístico, validação de métodos e gestão da qualidade. O laboratório acreditado precisa demonstrar, por meio de auditorias, que seus processos estão sob controle e que seus resultados podem ser comparados a padrões reconhecidos internacionalmente. Para isso, ele se apoia em normas estatísticas e metrológicas como o Vocabulário Internacional de Metrologia, o Guia para Expressão da Incerteza de Medição (GUM) e normas de controle estatístico de processo como a ISO 7870 e a ISO 5725.

 

Dentro desse sistema, os ensaios intralaboratoriais são a primeira camada de verificação. Eles avaliam a repetibilidade dos métodos dentro do próprio laboratório, usando estatísticas básicas como média, desvio padrão e coeficiente de variação. Esses estudos permitem identificar variações entre diferentes operadores, equipamentos ou procedimentos mal controlados. Embora fundamentais para a gestão interna, eles não fornecem evidência externa de competência, pois não permitem comparar o desempenho do laboratório com o de seus pares.

 

Já os ensaios interlaboratoriais ampliam esse escopo ao envolver dois ou mais laboratórios analisando a mesma amostra. Esses estudos podem ter diversos objetivos, como validar um novo método, desenvolver uma norma técnica ou investigar a variabilidade entre laboratórios. Quando estruturados conforme a ABNT NBR ISO 5725, eles permitem calcular estatisticamente a repetibilidade e a reprodutibilidade de um método, usando modelos de análise de variância e testes de outliers. Esses dados são essenciais para definir limites de precisão e para entender se diferenças entre resultados são normais ou indicam falhas técnicas.

 

No entanto, nem todo estudo interlaboratorial é um ensaio de proficiência. O ensaio de proficiência, regido pela ABNT NBR ISO/IEC 17043, é um tipo específico de interlaboratorial cujo objetivo é avaliar o desempenho dos laboratórios, e não o método. Ele é organizado por um provedor independente, que distribui amostras homogêneas e estáveis, coleta os resultados e os avalia por meio de modelos estatísticos padronizados. Indicadores como z-score, z’-score e En-number são usados para classificar os laboratórios em categorias como satisfatório, questionável ou insatisfatório. Esses indicadores são construídos a partir do desvio do resultado em relação a um valor de referência, normalizado pela variabilidade do ensaio ou pela incerteza associada.

 

A diferença entre um interlaboratorial e um ensaio de proficiência é crucial em auditorias e processos de acreditação. A dica é prestar atenção ao referencial: ensaios de proficiência possuem o referencial do resultado esperado (padrão). Um laboratório pode participar de inúmeros estudos interlaboratoriais e ainda assim não atender aos requisitos da ISO/IEC 17025 se esses estudos não forem organizados conforme a ISO/IEC 17043. Esse sistema integrado conecta estatística, metrologia e gestão da qualidade. A ISO 5725 fornece a base para entender a variabilidade dos métodos. A ISO/IEC 17043 transforma essa variabilidade em critérios de desempenho para laboratórios. A ISO/IEC 17025 usa esses resultados para sustentar a acreditação. Juntas, essas normas formam uma arquitetura que garante que um número gerado em um laboratório brasileiro possa ser comparado, com confiança, a um número produzido em qualquer outro laboratório do mundo.

 

No setor de polímeros, onde pequenas variações em ensaios como índice de fluidez, resistência mecânica ou propriedades térmicas podem ter impacto industrial significativo, essa estrutura é vital. Ela permite separar diferenças reais de material de erros de medição, proteger decisões técnicas e dar solidez a contratos e especificações. Em última análise, entender a diferença entre acreditação, interlaboratorial e ensaio de proficiência é entender como a ciência se transforma em confiança industrial.

 

 

Imagem: SergeyKlopotov/Shutterstock

 

 

Saiba mais sobre normas para o setor de plásticos acompanhando a seção Normas, no portal da Plástico Industrial.


 

(*)Alan Bonel é especialista em polímeros e atua há mais de 15 anos com foco em normas técnicas nacionais e internacionais, especialmente nas áreas de ensaios, laboratório e requisitos de montadoras. Compartilha conteúdos técnicos no LinkedIn e no canal do YouTube @bonelsimplificando.



 



Mais Notícias PI



Padronização pode promover o uso de gêmeos digitais na indústria

Nova norma vai padronizar o conceito de gêmeo digital, ajudando a reduzir divergências e acelerar a maturidade do mercado nacional desse tipo de tecnologia com alto potencial de uso industrial.

13/02/2026


Reciclagem mecânica de plásticos avança no Brasil

A reciclagem mecânica de plásticos pós-consumo movimentou R$ 4 bilhões no País em 2024, conforme mostrou um levantamento atualizado do Movimento Plástico Transforma.

13/02/2026


Sāco conquista selo de sustentabilidade da EcoVadis

A fabricante de compostos e masterbatches Sāco AEI Polymers foi classificada como uma das melhores empresas avaliadas globalmente em desempenho de sustentabilidade.

13/02/2026