Por Jochen Schaal e Miguel Ángel Mesa*


 

Dois anos depois do surto de Covid-19 e do período de lockdown, o otimismo está no ar e as indústrias estão se reconstruindo. No entanto, os desafios continuam, o que inclui interrupções nas cadeias produtivas, que resultaram na escassez de insumos e matérias-primas e no aumento de preços em todo o mundo.

 

Soma-se a esse cenário a alta da inflação, com as consequentes altas taxas de juros e dos altos custos de energia. Além disso, os preços crescentes das commodities devido à guerra Rússia-Ucrânia também estão no radar do segmento metalmecânico.

 


Especialistas em mapeamento de ruído proveniente de processos industriais comentam sobre a importância da realização de estudos nesta área

Fig. 1 – Processo de conformação de metais.


 

 

Outro desafio contínuo que a indústria enfrenta é o de gerenciar as emissões excessivas de ruídos em suas plantas. Os ruídos emitidos incluem tanto os processos em si como transportadores vibratórios e os processos de moldagem, entre outros. Adicionalmente, equipamentos como bombas, compressores e ventiladores, e o tráfego de veículos associados às atividades nas plantas industriais, também contribuem para o aumento do ruído do ambiente. 

 

Antes da pandemia o ruído ambiental de fontes industriais, entre outras, era tolerado como uma parte inevitável da vida moderna. Agora começamos a ver diversas possibilidades na direção de um futuro mais verde e saudável.



 

Retomada sustentável

 

Retomar as atividades com melhorias é um tema comum em todo o mundo no caminho da recuperação pós-pandemia. O “Programa Nacional de Crescimento Verde(2), anunciado pelo governo brasileiro em novembro de 2021, vincula o crescimento econômico ao desenvolvimento sustentável.

 

Seus objetivos incluem melhorar a gestão do capital natural para incentivar a produtividade, inovação e competitividade; gerar empregos verdes; promover a conservação das florestas e proteger a biodiversidade, a redução das emissões de gases de efeito estufa e a transição para uma economia de baixo carbono.

 

Na COP26 o ministro do Meio Ambiente anunciou o aumento da meta brasileira de redução da emissão de gases de efeito estufa de 43% para 50%, até 2030(1). Com quase 60% da Amazônia dentro das fronteiras de seu território(1), essas medidas de conservação ambiental são essenciais no Brasil.

 

À medida que as restrições são aliviadas, o governo e as empresas devem trabalhar duro para continuar protegendo pessoas e lugares, combatendo a poluição do ar e sonora, e incentivando o desenvolvimento de soluções de energia limpa.



 

Mapeamento do ruído

 

O nível de pressão sonora nos locais de trabalho dentro de indústrias deve ser mantido o mais baixo possível. Como parte da avaliação de risco, o empregador deve determinar se os trabalhadores estão expostos ao ruído e se devem ser tomadas medidas preventivas.

 


Fig. 2 – Exemplo de mapa interno dos níveis de exposição sonora de uma área industrial de produção.


 

 

Em seu “Relatório Mundial sobre Audição” de 2021(1) a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que 217 milhões de pessoas tenham algum grau de perda auditiva na América do Norte e América do Sul.

 

Reconhecer o ruído incômodo não é difícil, mas identificar as fontes e entender os caminhos de propagação são questões muito diferentes. Para reduzir o ruído e mitigar seus efeitos nocivos é preciso saber o máximo possível sobre esses fatores.

 

Pelo uso de programas computacionais de simulação acústica é fácil criar simulações de ruído para diversos ambientes e situações, assim como gerar tabelas com resultados e mapas de ruído informativos. Isso significa que as empresas podem avaliar o impacto em diferentes locais, identificar as fontes mais relevantes e avaliar a propagação dos ruídos pelas regiões de interesse.

 

Assim como os processos de corte e conformação de metais são assistidos por meio do uso de software CAD/CAM (Computer Aided Design/Manufacturing), os programas computacionais de simulação estão disponíveis para auxiliar no controle de emissões de ruído. Isso pode ajudar a garantir a otimização de atividades no chão de fábrica, de projetos de construção e de procedimentos operacionais. Os programas de simulação também podem ser usados para minimizar o ruído no uso dos metais em projetos de engenharia civil, construção e no setor automotivo, por exemplo.


Fig. 3 – Mapa de ruído (corte vertical) dentro de uma área industrial de produção.


 

 

Os dados podem ser inseridos nos modelos para criar um mapa de ruído representando a infraestrutura e os edifícios envolvidos. Os dados podem vir de várias fontes diferentes como sistemas de informação gráfica (GIS) ou outros serviços de mapeamento, especificações dos fabricantes dos equipamentos, bibliotecas do próprio programa ou outras bases de dados.

 

Cada mapa de ruído é único, e deve ser criado de acordo com o tamanho do projeto, geografia, objetivos e fontes de ruído relevantes, mas acima de tudo, em função dos dados disponíveis e que podem ser facilmente importados e usados. 



 

O impacto do ruído no trabalho

 

O ruído industrial pode causar problemas de saúde significativos para os trabalhadores e é um potencial fator de litígio contra qualquer empresa que não tome as medidas necessárias para proteger seus funcionários. Também pode impactar nos níveis de ruído ambiental externos às plantas.

 

As emissões de ruído industrial vêm de uma ampla variedade de fontes. No entanto, eles podem não ser identificados e nem categorizados facilmente, pois cada situação é diferente. Isso torna a avaliação e mitigação muito mais difícil em comparação com outras fontes de ruído como o tráfego de veículos, por exemplo.

 

A perda auditiva induzida por ruído (Pair) é uma das doenças ocupacionais mais comuns em todo o mundo. Por exemplo, nos Estados Unidos, o Centro de Controle de Doenças (CDC) estima que 22 milhões de trabalhadores estão expostos a ruídos potencialmente prejudiciais no trabalho a cada ano(1).

 

Segundo um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), 28 milhões de brasileiros têm problemas auditivos, o que equivale a 14% da população(1). O limite regulatório para o ruído ocupacional no Brasil é de 85 decibéis (dB) para uma jornada de trabalho de 8 horas(1).

 

Isso implica dizer que há risco de perdas auditivas se as pessoas forem expostas a um nível de ruído maior do que este. Esse risco aumenta com o nível sonoro, o tempo de exposição e a frequência do ruído, tendo em vista que frequências mais altas causam mais danos.

 

O principal problema em processos ruidosos é encontrar e documentar as áreas nas quais o ruído atinge 85 dB. Em locais onde os níveis de ruído excedam 85 dB os trabalhadores devem usar proteção auditiva. Se as áreas com níveis de ruído acima de 85 dB não estiverem claramente sinalizadas, as empresas estarão sujeitas a multas.

 

Se uma planta possui áreas que podem estar próximas ou acima de 85 dB, é aconselhável investir em um estudo de ruído para demarcar todas as áreas onde a proteção auditiva se faz necessária.



 

Mitigação do ruído

 

Os programas computacionais também permitem a avaliação de diferentes medidas mitigadoras de ruído. Por exemplo, definir a especificação de equipamentos mais silenciosos e introduzir medidas de controle de ruído, como barreiras acústicas.

 

Também podem ajudar a avaliar como posicionar enclausuramentos em torno de máquinas ruidosas, ou o efeito do rearranjo de equipamentos e edifícios, incluindo a adoção de materiais fonoabsorventes.

 

Diversas situações podem ser avaliadas em instalações industriais, galpões ou salas, por exemplo, para comparar diferentes conceitos de isolamento ou tratamento acústico ou a melhoria acústica obtida com o enclausuramento de máquinas ruidosas em um ambiente qualquer.

 

A tecnologia da simulação acústica oferece a opção de desenvolver “cenários hipotéticos” para que o impacto de modificações conceituais possa ser avaliado antecipadamente. Diferentes opções podem ser testadas e avaliadas, em vez de ter que se implementar, dispendiosamente, medidas mitigadoras ainda não testadas.

 

Os níveis de ruído futuros podem ser previstos e medidas preventivas podem ser planejadas para controlá-los. Com essa abordagem a mitigação de ruído pode ser direcionada de maneira mais econômica e assertiva.



 

Um futuro promissor

 

As empresas precisam desenvolver mecanismos para garantir que estarão em conformidade com o endurecimento das políticas e procedimentos verdes. As consequências de não reduzir a pegada ambiental incluem o aumento da poluição sonora e do ar, impacto na saúde, na segurança e nas finanças.

 

Usar equipamentos de baixo ruído e bem conservados ou colocar uma barreira entre o trabalhador e a fonte de ruído são passos relativamente simples, mas podem ter um impacto enorme na vida das pessoas. O uso de ferramentas computacionais de mapeamento de ruído leva ao conhecimento necessário para que o empresário possa identificar com precisão as mudanças mais apropriadas e proteger seus funcionários, a comunidade local e seus negócios.


 

*Jochen Schaal é diretor geral da SoundPlan GmbH e Miguel Ángel Mesa (proyectos@egssolutions.com.co) é diretor da SoundPLAN Latinoamérica.


 

 

Referências:

 

1) https://www.abifa.org.br/2021-marca-ano-impar-para-industria-de-fundicao-que-inicia-2022-otimista-com-a-amenizacao-dos-efeitos-da-pandemia-na-economia/)

 

2) https://www.globalcompliancenews.com/2021/11/28/brazil-federal-government-launches-green-growth-national-program-15112021/

 

3) https://www.gov.br/mma/pt-br/noticias/brasil-encerra-participacao-na-cupula-do-clima-com-resultados-historicos

 

4) https://www.nature.org/en-us/get-involved/how-to-help/places-we-protect/amazon-rainforest/

 

5) World Health Organization ‘World Report on Hearing’ March 2021: https://www.who.int/publications/i/item/world-report-on-hearing

 

6) The Center for Disease Control: https://www.cdc.gov/niosh/topics/noise/default.html

 

7) Audiology Worldwide News: https://www.audiology-worldnews.com/awareness/1007-brazilian-hearing-problems

 

8) https://www.gov.br/trabalho-e-previdencia/pt-br/composicao/orgaos-especificos/secretaria-de-trabalho/inspecao/seguranca-e-saude-no-trabalho/normas-regulamentadoras/nr-15-anexo-01.pdf


 

 

Imagens: Jochen Schaal e Miguel Ángel Mesa



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