Para quem trabalha com termorrígidos (resinas fenólicas, epóxis, poliésteres insaturados e até mesmo elastômeros) a pergunta mais cara do processo não é "o material vai curar?", mas "quanto tempo, com que
perfil, e com que uniformidade lote a lote?". A resposta padronizada a essa pergunta vem de um equipamento pouco discutido fora dos laboratórios especializados: o reômetro de torque (foto ao lado).
O princípio do ensaio, normatizado pela ASTM D3795, é conceitualmente simples: uma amostra do material termorrígido pastoso ou granulado é carregada em uma câmara de mistura com pás contrarrotativas, mantida em temperatura controlada, e o torque necessário para manter a rotação constante é registrado continuamente. Essa curva de torque em função do tempo conta toda a história do processamento em um único gráfico: primeiro, um pico inicial de torque de carregamento; em seguida, o material amolece e o torque cai até um mínimo, que representa o ponto de máxima fluidez; a partir daí, conforme a reticulação avança, o torque volta a subir até atingir um pico final, correspondente à cura completa.
Dessa curva derivam parâmetros que se tornaram vocabulário padrão da indústria de termorrígidos: o tempo de vida útil da massa fundida (a janela em que o material ainda pode ser processado, entre o ponto de torque mínimo e o início efetivo da cura) e o tempo total de cura, que determina diretamente o ciclo de produção em uma prensa ou molde. A norma também padroniza como reportar a uniformidade entre lotes de um mesmo fornecedor — um ponto crítico para compradores que precisam qualificar múltiplos lotes de matéria-prima ao longo do tempo sem surpresas no chão de fábrica.
Vale registrar que essa norma é tecnicamente equivalente, mas não idêntica, à antiga ISO 15062 (hoje inativa) e se relaciona à ISO 15252-2, específica para compostos de moldagem em pó epóxi — o que reforça a importância de checar qual norma exatamente está sendo referenciada em um contrato de fornecimento internacional, já que pequenas diferenças metodológicas entre ASTM e ISO podem gerar números não diretamente comparáveis.
Um paralelo interessante, embora fora do universo dos polímeros, ilustra bem a robustez desse tipo de abordagem: a norma ASTM F2004, que usa DSC (não reometria de torque, mas o mesmo princípio de identificar transições térmicas características) para determinar temperaturas de transformação de fase em ligas metálicas com memória de forma, como o Nitinol. O rigor estatístico interlaboratorial documentado nesta norma — testes em sete laboratórios distintos, com limites de repetibilidade e reprodutibilidade claramente tabelados — é o mesmo padrão de exigência que sustenta a confiabilidade dos ensaios de cura em termorrígidos poliméricos.
Para o comprador de resina termorrígida, a lição prática é direta: exigir a curva de reômetro de torque do lote, não apenas a ficha técnica genérica do produto, é a forma mais eficaz de evitar surpresas de ciclo de prensa no primeiro dia de produção.
Saiba mais sobre normas para o setor de plásticos acompanhando a seção Normas, no portal da Plástico Industrial.
Imagem: Haake
________________________________________________________________________________________
Assine a PI News, a newsletter semanal da Plástico Industrial, e receba informações sobre mercado e tecnologia para a indústria de plásticos. Inscreva-se aqui.
________________________________________________________________________________________

(*)Alan Bonel é especialista em polímeros e atua há mais de 15 anos com foco em normas técnicas nacionais e internacionais, especialmente nas áreas de ensaios, laboratório e requisitos de montadoras. Compartilha conteúdos técnicos no LinkedIn e no canal do YouTube @bonelsimplificando.
Mais Notícias PI
Mais do que registrar fluxos de calor, a vibração senoidal da DMA expõe transições secundárias e descontinuidades no material, contribuindo para o diagnóstico definitivo da formulação e para o controle do desempenho de peças técnicas em polímeros.
22/09/2026
Imperceptível a olho nu, a degradação do sistema de estabilização térmica pode levar peças recicladas à falha precoce em campo. O ensaio de Tempo de Indução Oxidativa (OIT) é uma ferramenta essencial para prever a vida útil das poliolefinas e orientar quanto à necessidade de nova aditivação dos lotes.
16/09/2026
Técnica termogravimétrica permite mensurar com exatidão as frações de resina, cargas minerais e aditivos, alinhando a formulação nominal com as especificações técnicas da peça.
01/09/2026