Por Aline Barbosa Mader*
Ter um emprego na indústria sempre foi uma meta de profissionais e o sonho de muitos pais para seus filhos, que viam no setor boas oportunidades, salários acima da média e estabilidade profissional. Mas as mudanças na sociedade, nas prioridades das pessoas e na tecnologia estão alterando esse cenário.
Segundo a pesquisa “Rumos da Indústria Paulista: Mercado de Trabalho”, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI-SP), realizada pelo Instituto Locomotiva, 77,1% das indústrias em São Paulo tiveram dificuldade para preencher vagas entre 2024 e 2025.
A pesquisa também revelou uma mudança de comportamento: 58% dos entrevistados desejam trabalhar por conta própria, enquanto apenas 11% preferem atuar na indústria. Na geração anterior, a indústria era o sonho de 24% dos profissionais. Segundo o estudo, 67% acreditam que a carteira assinada não garante mais segurança no futuro e 64% afirmaram que o modelo formal tem pouca flexibilidade para equilibrar vida pessoal e profissional.
Uma das causas apontadas pelo estudo para o desinteresse em trabalhar na indústria é a busca pelo empreendedorismo, gerado pelo avanço de trabalhos por aplicativos e as redes sociais. A dificuldade de encontrar profissionais não é exclusiva da indústria. Há alguns meses o CEO de uma das maiores construtoras do Brasil disse em uma conferência de resultados: “As pessoas não querem mais trabalhar com obra. Querem ser influencer ou motoboy”.
Economia de aplicativos e redes sociais
Ao analisarmos os números dessas novas opções de carreira a afirmação faz sentido. O Brasil alcançou a marca de 1,654 milhão de pessoas trabalhando por meio de aplicativos e plataformas digitais em 2024, segundo o módulo Trabalho por meio de plataformas digitais – 2024 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em outubro de 2025. O número representa um crescimento de 25,4% em relação a 2022, quando havia 1,319 milhão de trabalhadores nessa modalidade.
A pesquisa Do Feed ao Plenário: o debate sobre regulamentação de influenciadores digitais no Congresso Nacional, do Reglab - Centro de Estratégia & Regulação -, think tank especializado em pesquisa e consultoria, informa que o Brasil tem 3,8 milhões de criadores de conteúdo, em um mercado que movimenta R$ 20 bilhões por ano. Mas este número pode ser muito maior, já que o estudo Creator Revolution, encomendado pela Meta à Creative Class, estima que o País pode somar cerca de 40 milhões de criadores de conteúdo.
Já o setor industrial, de acordo com o IBGE, gera no Brasil 8,5 milhões de empregos em 376,7 mil empresas. Além disso, uma pesquisa da consultoria Youpix mostrou que três de cada quatro integrantes da geração Z, nascidos entre 1996 e 2010, pensam em se tornar influencers em busca de uma rotina de diversão, fama e boa remuneração. A faixa etária é justamente a mais difícil de ser recrutada pela indústria, segundo a pesquisa Rumos da Indústria Paulista: Mercado de Trabalho, da Fiesp e do Senai-SP.
O setor industrial sempre realizou ações para incentivar adolescentes e jovens a terem interesse em trabalhar na indústria, promovendo visitas dos estudantes às plantas industriais e apoiando os eventos organizados por universidades e estudantes, chamados de “Semanas” e que contam com uma programação de palestras, workshops, mesas redondas, visitas técnicas e feiras de recrutamento para estágios.
Mas também é necessário despertar a paixão pela indústria, mostrando a importância do setor para a sociedade e até para a economia de aplicativos e redes sociais. Pois sem setores como a mineração, a siderurgia ou a química, por exemplo, não seria possível ter os equipamentos e a infraestrutura que possibilitam a existência da internet, dos computadores e celulares.
Uma forma de estimular a paixão de adolescentes e jovens é patrocinar e fornecer insumos e equipamentos para competições onde os estudantes do ensino médio técnico e da graduação possam colocar em prática o conhecimento adquirido nas aulas, como o STEM Racing, First Tech Challenge, Baja e Fórmula SAE, Olimpíada Brasileira de Robótica, entre outros. Nessas competições os estudantes podem usar os produtos e as inovações da indústria, e entender como eles são fundamentais para a sociedade e fazem parte do seu dia a dia.
Indústria ainda é uma excelente opção profissional
Os jovens, que buscam as ocupações geradas pela economia de aplicativos e os que desejam ser influenciadores, precisam estar cientes de que, como qualquer outro trabalho, essas ocupações possuem regras e o caminho nem sempre é fácil.
No caso da economia por aplicativos, o módulo Trabalho por meio de plataformas digitais – 2024 da PNAD Contínua apontou que existe o controle das plataformas sobre a execução do trabalho, que 76,7% dos motoristas dependem da plataforma para definir quais clientes atender e 70,4% dos entregadores relatam que os prazos para a realização das tarefas são impostos pelo aplicativo.
As plataformas também utilizam estratégias como incentivos, bônus, promoções, ameaças de punições e bloqueios para influenciar as jornadas de trabalho. Em 2024, 55,8% dos motoristas e 50,1% dos entregadores relataram que sua jornada era impactada por esses incentivos e mudanças nos preços e mais de 30% mencionaram que foram submetidos a ameaças de punições ou bloqueios.
Segundo a Youpix, no Brasil 68% dos criadores precisam de outra fonte de renda e apenas 32% vivem integralmente da renda como influenciadores e criadores de conteúdo. Desses, menos de 1% atinge a marca de R$ 100 mil mensais em faturamento. Globalmente, o estudo Creator Revolution informa que 56% ganham menos de US$ 1.000 por ano.
O trabalho no setor industrial também tem regras e as melhores oportunidades profissionais demandam formação técnica ou universitária, mas atualmente há uma alta demanda do setor produtivo por profissionais capacitados. Segundo a Pesquisa de Acompanhamento de Egressos 2022-2024 do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), 85,6% dos profissionais formados pela instituição estão empregados, a maior porcentagem desde o início da série histórica da pesquisa, em 2002.
O indicador de incremento da renda da pesquisa, que compara a renda média durante e após o curso, aponta que a renda média salarial após é de quase dois salários-mínimos. Os habilitados nos cursos técnicos de nível médio têm um incremento de 17,4% na renda; nos cursos de qualificação profissional o aumento é de 8%; e ex-alunos de graduação têm acréscimo de 8,7% no salário. Os profissionais que atuam na área de formação recebem mais do que aqueles que ocupam vagas em outros setores e ex-alunos de cursos técnicos de nível médio que trabalham na área, por exemplo, têm um ganho salarial até 27,6% maior.
Também é política de muitas indústrias oferecer uma formação continuada para que os profissionais possam se desenvolver ao longo de toda a carreira, incluindo Planos de Desenvolvimento Individual (PDI) dedicados às habilidades técnicas e comportamentais que precisam ser aprimoradas para que o profissional evolua na carreira.
Uma boa formação técnica e experiência profissional podem, inclusive, ajudar em uma carreira como influenciador. Lito Sousa, criador do canal Aviões e Músicas, com mais de 3 milhões de inscritos no YouTube, tem formação técnica e superior em Manutenção de Aeronaves e antes de se dedicar em tempo integral à criação de conteúdo teve uma sólida carreira em sua área de formação. Sousa também é um dos fundadores da Lito Aviation Academy com cursos homologados pela ANAC e faz palestras, atividades que geraram um faturamento de R$ 10 milhões em 2024.
A indústria segue sendo um pilar essencial para o desenvolvimento econômico e social, oferecendo carreiras estruturadas, formação contínua e oportunidades reais de crescimento profissional. Mesmo diante das transformações no mundo do trabalho e do surgimento de novas ocupações, o setor industrial permanece como um ambiente onde o conhecimento técnico, a inovação e a disciplina se transformam em valor, impacto e soluções concretas para a sociedade. É na indústria que ideias ganham escala, qualidade e segurança, sustentando inclusive a economia digital e os avanços tecnológicos.
Escolher a indústria é optar por uma trajetória profissional sólida, com aprendizado constante, desenvolvimento de competências valorizadas no longo prazo e possibilidade de evolução consistente. Ao fortalecer o vínculo entre educação, tecnologia e propósito, o setor industrial continua sendo uma excelente opção para quem busca não apenas um emprego, mas uma carreira com significado, contribuição social e perspectiva de futuro.
*Aline Barbosa Mader é Gerente de Desenvolvimento Humano e Organizacional do setor de Gente e Gestão do Grupo Flexível.
Imagem: Divulgação.
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