Hellen Souza, da redação
A modernização tecnológica tornou-se um ponto crucial para as ferramentarias brasileiras, que atualmente enfrentam a forte concorrência chinesa. Se, no passado, as fornecedoras asiáticas de moldes e estampos tinham o preço como maior atrativo, hoje elas são altamente competitivas em termos de qualidade, prazo e previsibilidade no fornecimento.
Esses atributos do ferramental chinês têm exigido das empresas brasileiras uma modernização para a qual poucas estão preparadas, e isso passa pelo conhecimento de ferramentas digitais e seus novos recursos, tais como simulação, conectividade e integração com inteligência artificial (IA).
Para superar a defasagem tecnológica e manter a viabilidade econômica, o caminho apontado por Glauber
Longo (foto), diretor da TopSolid'Brazil, passa pela disseminação intensiva do conhecimento das ferramentas digitais aplicadas ao desenvolvimento e fabricação de moldes e estampos. A modernização não se limita à aquisição de novas máquinas, mas exige a integração de ferramentas CAD/CAM com recursos digitais mais avançados.
No cenário atual de escassez de mão de obra qualificada, a otimização dos tempos mortos e a eliminação de retrabalho no chão de fábrica tornaram-se vitais. Longo destaca que recursos básicos de preparação de processo, tais como o uso de apalpadores para realizar o preset de ferramentas de usinagem, economizam muitas horas de trabalho, mas são conhecidos por menos da metade ddas ferramentarias brasileiras. “A automação do setup e da inspeção dimensional direta na máquina-ferramenta é capaz de reduzir tempos de preparação para escassos 5 a 10 minutos, resultando em um incremento imediato de até 25% na capacidade produtiva”, comentou Glauber.
Outro entrave crítico está nos processos fabris defasados, como o uso intensivo de eletroerosão por penetração para a confecção de cavidades complexas. O gerenciamento dos eletrodos consome um tempo precioso nos processos fabris.
A migração para centros de usinagem de alta velocidade (HSM) de 3 e 5 eixos e com rotações superiores a 30.000 rpm permitiria reduzir drasticamente a dependência de eletrodos e agilizar a entrega. No entanto, a operação desses equipamentos de alto rendimento exige cuidado na implementação, com o possível uso de sistemas de simulação digital, outro recurso ainda distante da rotina das empresas locais.
No âmbito dos moldes de injeção, a simulação do processo por sistemas CAE já deixou de ser um item opcional de verificação para se consolidar como exigência de engenharia. Ignorar a validação prévia de preenchimento, recalque e linhas de solda resulta em sucessivos ensaios físicos (tryouts) e correções manuais que corroem os prazos e a rentabilidade do projeto. Atualmente, módulos de simulação avançados incorporam inteligência artificial e aprendizagem de máquina para prever deformações e propor automaticamente ajustes de geometria, tornando mais assertivo o desenvolvimento da peça antes mesmo do início da usinagem do molde.
A eficiência na fabricação de matrizes e moldes depende também da eliminação de gargalos operacionais entre o departamento de engenharia e os demais setores da empresa. A adoção de plataformas CAD/CAM integradas aos sistemas de gestão fabril (MES) e empresarial (ERP) garante a atualização dinâmica das listas de materiais (BOM) e a checagem automática da disponibilidade de ferramentas de corte, dispositivos de fixação e gabaritos antes da liberação do programa CNC para a máquina. Esse ecossistema digital impede paradas não planejadas e assegura a previsibilidade necessária para cumprir prazos rigorosos.
Auxílio à disposição das ferramentarias
Glauber alerta que para viabilizar essa transformação digital em pequenas e médias empresas há programas de fomento como o Fundep, que coordena a Linha IV do Programa Mover, com atenção prioritária ao Programa Ferramentarias Mais Competitivas. Eles têm desempenhado um papel decisivo ao subsidiar o licenciamento de softwares técnicos, o treinamento especializado e o acesso a serviços de consultoria.
Já o SENAI está reformulando gradativamente os seus cursos técnicos voltados para o setor, incluindo em sua grade curricular disciplinas que contemplam as mais recentes tecnologias digitais, incluindo sistemas de simulação e uso de IA nas rotinas de desenvolvimento e produção. A instituição dispõe também de um programa gratuito de aperfeiçoamento profissional em 5S, para o desenvolvimento de competências para analisar e solucionar problemas de processo e qualidade.
Ao associar a capacitação profissional ao investimento subsidiado em tecnologias digitais, as ferramentarias brasileiras podem adquirir as condições técnicas necessárias para elevar seu grau de eficiência, otimizar ciclos de usinagem e competir em pé de igualdade no mercado global.
Imagem: Shutterstock
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