Por Walter Sanches*

 

A digitalização na indústria de transformação vem se consolidando no contexto da Indústria 4.0 como um dos principais fatores de competitividade dos negócios deste setor. A capacidade de conectar as operações ao planejamento estratégico em tempo real está alterando a dinâmica de disputa do mercado pelas empresas, e a modernização dos sistemas de ERP representa um dos principais catalisadores deste processo.

 

A gestão das operações, especialmente nos últimos anos, vem sendo pressionada a ser mais eficiente, principalmente por conta de fatores como a importação de produtos a preços mais acessíveis, as incertezas macroeconômicas e tarifárias, questões logísticas, ligadas à volatilidade e aos riscos globais, e geopolíticas, mudanças no mercado de trabalho devido à escassez de mão de obra e a agenda ESG.

 

Em 2024, mais de 10 mil empresas dos setores extrativos e de transformação utilizaram algum tipo de informação digital em suas atividades, de acordo com a Pesquisa de Inovação Semestral (Pintec Semestral). Nesse sentido, fatores como a transformação de ordens durante o processo produtivo, controle de custos de matérias-primas, insumos e energia, retenção de conhecimento, imobilização de capital e rastreabilidade dos produtos impactam diretamente a excelência operacional na indústria.

 

A função mais importante do ERP, neste cenário, é impulsionar a inovação e o crescimento sustentável dos negócios pela coleta de dados de alta qualidade, que, no futuro próximo, servirão de base para a integração da inteligência artificial à rotina de planejamento de recursos.

 

Reflexo da relevância dessa ferramenta é que o mercado global de ERPs deve ultrapassar US$ 116 bilhões até 2034, segundo estudo da Precedence Research, numa taxa de crescimento médio anual de aproximadamente 7%.

 

 

Riscos da desatualização

 

Na indústria de transformação os processos estão sempre evoluindo e isso exige que os sistemas também sejam aprimorados. Caso essa coordenação não seja realizada, a conexão entre as áreas de uma indústria pode ser comprometida, transformando a empresa em um conjunto de departamentos isolados que não se comunicam de forma efetiva.

 

Os impactos dessa desatualização podem se manifestar de diversas maneiras em setores como a transformação do cobre, por exemplo. Entre elas está a execução de planos desconectados, criando condições para um efeito dominó entre diferentes áreas, a dependência de planilhas na tentativa de gerenciar a operação, a subjetividade das informações e a falta de uma visão integrada da interdependência entre os setores, o que contribui para reduzir a eficiência operacional da atividade industrial e, consequentemente, gerar custos de retrabalho para a companhia.

 

Mesmo que uma parcela dos sistemas legados continue sendo útil para os processos de uma empresa, o uso de plataformas mais antigas, seja em relação ao software ou hardware, pode trazer riscos tanto à gestão quanto à segurança digital. Um exemplo desse fenômeno está ligado à Reforma Tributária.

 

Neste contexto e considerando que o ERP atua como a espinha dorsal do empreendimento, as versões legadas podem não oferecer o suporte necessário para atender às novas regras fiscais, o que colocaria a empresa sob ameaça de não conformidade e paralisação das operações de faturamento.

 

Este é um dos indicativos de que sistemas obsoletos não acompanham mais a velocidade e a complexidade atuais, criando barreiras para a escalabilidade, a agilidade e a inovação em diversas frentes críticas do negócio e impactando a capacidade de expansão e sobrevivência das empresas.

 

 

Benefícios de ERPs modernos

 

Desse modo, a atualização ou substituição de um ERP legado por uma plataforma mais moderna proporciona benefícios operacionais e produtivos, além de uma mudança que pode alterar a dinâmica da fábrica de um estado reativo para um ambiente inteligente e preditivo.

 

Entre os ganhos à operação, destacam-se a aceleração na criação de produtos e orçamentos, com a automação do processo de elaboração de listas técnicas, roteiros e custos, tornando mais ágil o time to market de uma solução; a redução no uso de planilhas, substituídas por plataformas digitais industriais conectadas em tempo real, limpeza de processos e a capacidade de inovação contínua.

 

Já os benefícios produtivos estão ligados a elementos como o planejamento avançado de produção (APS), que permite uma programação instantânea para otimizar o uso do maquinário e viabilizar prazos críticos sem intervenção manual complexa, e a maximização de máquinas por meio de ordens combinadas de pedidos com as mesmas especificações, processo que economiza tempo de setup e reduz o desperdício de material na linha de produção.

 

Além disso, outra área positivamente impactada pelos modelos de ERP mais recentes é a eficiência energética. Considerando que os custos com energia podem representar até 30% do custo final do produto, o recurso tecnológico é capaz de analisar o histórico da fábrica e sugerir ao operador os parâmetros ideais para o material, assegurando sua qualidade com menor valor atrelado a gastos energéticos. A rastreabilidade detalhada para respostas rápidas e a manutenção preditiva autônoma complementam os ganhos.

 

É fundamental reforçar, no entanto, que os benefícios não serão concretizados na indústria de transformação apenas com a implementação de um ERP moderno. Essa ação garante que a ferramenta necessária esteja disponível, mas a empresa continuará dependendo de projetos estruturados que alinhem pessoas e processos para que os resultados reais sejam obtidos.

 

A cultura organizacional é um dos pilares do sucesso dos esforços de transição digital para a indústria de transformação. O ritmo de implantação de qualquer inovação deve respeitar a capacidade de absorção da mudança pelas equipes operacionais, de modo a viabilizar o crescimento sustentável de toda a atividade industrial.

 

Por isso, contar com sistemas de ERP modernos é essencial para uma companhia que busca prosperar na era da Indústria 4.0, de modo que sejam criadas as condições para ampliar a capacidade de integrar informações, responder rapidamente às mudanças e transformar dados em eficiência operacional e produtiva.

 

*Walter Sanches é diretor de tecnologia da informação e planejamento da Termomecanica.

 

Imagens: Divulgação.



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