Entre os principais desafios atuais do setor elétrico brasileiro, o curtailment tem ocupado o centro dos debates. A EPE - Empresa de Pesquisa Energética vem conduzindo uma série de estudos voltados à mitigação do problema e apresentou, no primeiro dia do congresso Intersolar South America (26/8), um conjunto de medidas planejadas e em andamento para o curto e médio prazo.

Segundo Renata Carvalho, assessora da Diretoria de Estudos de Energia Elétrica na EPE, entre as ações já definidas está a expansão de mais de 15 mil quilômetros de linhas de transmissão, incluindo o bipolo em corrente contínua Nordeste–Sudeste, considerado estratégico para o escoamento da geração renovável. Também estão previstas instalações de compensadores síncronos. “Esses investimentos somam aproximadamente R$ 56 bilhões, referentes a licitações concluídas em 2023 e 2024, com entrada em operação entre 2028 e 2030”, destacou. Segundo ela, “têm sido observadas margens de escoamento reduzidas, muitas vezes zeradas, principalmente no Nordeste, além de negativas de acesso à rede para novos geradores. Esse incômodo tem nos motivado a buscar alternativas no planejamento da expansão da transmissão e na integração de novas demandas”.

A EPE tem concentrado esforços em quatro grandes frentes para reduzir os cortes de geração no Sistema Interligado Nacional (SIN). A primeira delas é a realização de estudos de expansão, voltados à definição de obras estruturantes. Segundo Carvalho, estão em avaliação tanto soluções regionais, voltadas à eliminação de restrições em redes locais, quanto alternativas para reduzir limitações de intercâmbio entre subsistemas — com destaque para a análise de um novo bipolo. As iniciativas também contemplam diagnósticos de controle de tensão no SIN e a definição de expansões com visão de longo prazo, de modo a recompor o suporte de potência reativa.

O segundo eixo de atuação da EPE envolve estudos prospectivos voltados à integração de grandes cargas, que podem desempenhar papel estratégico na redução do curtailment por razões energéticas. A projeção é de inserção de novos grandes consumidores até 2038, com destaque para hidrogênio verde e data centers.

De acordo com a assessora da EPE, há atualmente 18 projetos de hidrogênio verde em análise, somando cerca de 44 GW de potência instalada — o equivalente a três vezes o pico da carga atual do Nordeste. Em paralelo, foram protocolados 50 projetos de data centers no processo de conexão à rede básica, que totalizam 14 GW. Do total, 29 projetos se concentram no estado de São Paulo, representando 7 GW, enquanto um projeto no Sul prevê 5 GW de carga até 2038.

Para o hidrogênio, cuja concentração está no Nordeste, a EPE conduz estudos para viabilizar a conexão de 4 GW adicionais. No caso dos data centers, mais localizados em São Paulo, a previsão é de reforços na rede de transmissão, com a possibilidade de conexão de 500 MW na região metropolitana e de 800 MW a 1 GW em Campinas e Jundiaí.

Já a segunda etapa do estudo, ainda em andamento, indica a necessidade de ampliar em cerca de 2 GW a capacidade da transmissão na região metropolitana de São Paulo e em 2,5 GW em Campinas e Bom Jardim.

Outra frente de atuação é o desenvolvimento de ferramentas computacionais para aprimorar análises e simulações eletroenergéticas. “Estamos investindo em softwares que permitam estudos integrados de geração e transmissão, com maior aderência à realidade operativa. Isso possibilita quantificar com mais precisão as restrições por razões elétricas e energéticas”, destacou Carvalho.

O quarto conjunto de ações envolve a expansão da oferta de geração, com foco em incorporar e tratar os excedentes de energia na modelagem do planejamento. Nesse âmbito, a EPE também desenvolve uma metodologia de análise de custo-benefício para as soluções de mitigação dos cortes de geração. “Estamos trabalhando na incorporação do curtailment na metodologia de revisão de garantia física por geração verificada”, afirmou. “O excedente é uma realidade, e precisamos trabalhar para otimizá-lo. Isso envolve aprimorar a sinalização econômica e remunerar adequadamente os serviços do sistema”, completou.

No próximo Plano Decenal de Energia (PDE 2035), a expectativa é que a análise de soluções de armazenamento ganhe maior destaque, já que começam a se mostrar economicamente viáveis e deverão desempenhar papel fundamental na mitigação do curtailment por razões energéticas.



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