A transformação digital impulsionada pela IA - Inteligência Artificial abre espaço para uma nova etapa da infraestrutura de telecomunicações no Brasil. Um estudo encomendado pela Associação NEO aponta que, dos cerca de 100 mil pontos de presença (POPs) existentes nas redes de operadoras e provedores brasileiros, aproximadamente 4280 têm potencial para serem convertidos em edge data centers regionais, ampliando a capacidade nacional de processamento de dados e reduzindo a dependência de estruturas concentradas nos grandes centros urbanos.
Segundo o levantamento, a adaptação desses POPs demandaria investimentos da ordem de R$ 2,14 bilhões em Capex, incluindo infraestrutura, equipamentos e licenças. A proposta é criar uma camada distribuída de processamento capaz de complementar os grandes data centers hyperscale e atender às crescentes demandas de aplicações de IA, computação de borda e serviços de baixa latência.
Para a Associação NEO, o Brasil reúne condições favoráveis para ocupar posição estratégica na economia digital. O país possui uma das maiores redes de fibra óptica do mundo, presença crescente de pontos de troca de tráfego (IX.br), 15 cabos submarinos em operação e uma matriz elétrica majoritariamente renovável. Além disso, a descentralização da conectividade promovida pelos provedores regionais criou uma infraestrutura distribuída que pode servir de base para a expansão dos data centers de borda.
“O Brasil tem todos os elementos para se transformar numa grande potência de dados”, afirma Rodrigo Schuch, presidente-executivo da Associação NEO. Segundo ele, os edge data centers não competem com os hyperscales, mas atuam de forma complementar, aproximando o processamento das aplicações dos usuários e contribuindo para reduzir latência e aumentar a resiliência da infraestrutura digital.
O avanço da IA reforça a necessidade de descentralização do processamento. Estudos internacionais indicam que aplicações de inteligência artificial exigirão infraestrutura computacional posicionada a distâncias cada vez menores dos usuários finais, de no máximo 100 km. Nesse cenário, os POPs já existentes poderiam ser aproveitados por contarem com características básicas necessárias para operação de data centers, como conectividade, energia e sistemas de climatização.
Outro argumento apresentado pela associação é o da soberania digital. Atualmente, cerca de 60% da carga digital consumida no país é processada no exterior, enquanto aproximadamente 90% do fluxo de dados depende de conexões internacionais.
Para viabilizar a transformação dos POPs em edge data centers, a NEO defende uma política de Estado voltada ao setor, combinando incentivos tributários, ampliação do uso dos recursos do Fust - Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações e estímulos à contratação de infraestrutura nacional de processamento de dados. Segundo Schuch, os incentivos atualmente em discussão, como o programa Redata, são importantes, mas insuficientes para tornar o país competitivo frente a mercados vizinhos na atração de investimentos.
Além da agenda relacionada à infraestrutura digital, a associação vem ampliando sua atuação em temas regulatórios e de mercado. Um dos principais focos é o combate à informalidade e à atuação de provedores clandestinos e facções criminosas que operam ou controlam redes de telecomunicações em determinadas regiões do país.
“Sempre vamos defender competição justa”, afirma Schuch. Segundo ele, há um contingente significativo de conexões de banda larga que não são reportadas aos sistemas regulatórios, o que gera distorções concorrenciais e prejudica a formulação de políticas públicas.
Nesse contexto, a NEO firmou recentemente um convênio de cooperação técnica com a Feninfra para apoiar o cumprimento das obrigações previstas na regulamentação da Anatel. Pelo acordo, a associação passará a auxiliar seus associados na coleta, armazenamento e análise preliminar de informações exigidas pelo órgão regulador, utilizando inclusive ferramentas de inteligência artificial. A iniciativa busca fortalecer a conformidade regulatória e combater práticas consideradas de concorrência desleal.
Outra frente prioritária é a questão do compartilhamento de postes. A entidade defende a adoção de um preço-teto nacional para ocupação da infraestrutura, estimado em R$ 5,44 por ponto de fixação, além de medidas para ampliar a capacidade de compartilhamento e acelerar a regularização das redes instaladas. Segundo Schuch, os custos relacionados aos postes representam hoje um dos principais componentes das despesas operacionais dos provedores regionais.
A associação também acompanha discussões relacionadas ao acesso ao espectro de radiofrequências e à revisão das regras do mercado móvel, defendendo condições que permitam a ampliação da competição por operadoras regionais e prestadoras de serviços móveis virtuais (MVNOs). A avaliação da entidade é que a expansão da conectividade e da infraestrutura digital dependerá não apenas de investimentos em redes e data centers, mas também de um ambiente regulatório que favoreça a entrada de novos agentes e a inovação tecnológica.
Fundada em 1999 por operadores independentes e regionais, a Associação NEO reúne atualmente cerca de 150 empresas associadas, presentes em mais de 5 mil municípios brasileiros e responsáveis pela conexão de mais de 15 milhões de clientes. A entidade afirma representar um dos segmentos mais capilarizados da infraestrutura nacional de telecomunicações, característica que, na sua avaliação, poderá ser decisiva para sustentar a próxima fase de expansão dos serviços digitais e das aplicações de IA no país.
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