O Idec – Instituto de Defesa de Consumidores elevou o tom contra a implantação de um data center em Caucaia, CE, associado a operações digitais de grande escala, ao apontar falhas de transparência, riscos socioambientais e possível violação de direitos de comunidades locais e indígenas.

Segundo o instituto, o empreendimento ligado ao TikTok avançou com baixo nível de participação social. A população teria tomado conhecimento do projeto apenas em julho de 2025, por meio da imprensa, enquanto o licenciamento ambiental ocorreu de forma simplificada e fragmentada, o que, na avaliação da entidade, limita a análise dos impactos reais.

O caso envolve ainda denúncias do povo indígena Anacé, que afirma não ter sido consultado previamente, como prevê a Organização Internacional do Trabalho por meio da Convenção 169. Lideranças locais relatam pressão sobre o território para viabilizar a instalação de grandes empresas de tecnologia.

A crítica do Idec se insere em um movimento mais amplo de questionamento institucional. Em agosto de 2025, a entidade, junto a outras organizações, acionou o Ministério Público Federal, que passou a investigar o processo. Uma perícia realizada em dezembro apontou inconsistências no licenciamento e riscos associados ao projeto, mesmo com o início das obras no começo de 2026.

Para Julia Catão Dias, coordenadora do programa de consumo responsável do Idec, o caso expõe uma assimetria entre comunidades afetadas e os interesses econômicos envolvidos. “Não houve transparência nem participação social em uma decisão que impacta diretamente o território. O digital não é imaterial: depende de grandes volumes de água, energia e recursos naturais”, afirma.

O empreendimento ocupa área equivalente a 12 campos de futebol e pode demandar até 300 MW de potência — consumo comparável ao de cerca de 2,2 milhões de pessoas. Também está prevista a captação de água do Aquífero Dunas, em uma região que já enfrenta restrições hídricas.

Na avaliação do Idec, a associação automática entre data centers e desenvolvimento tecnológico desconsidera custos socioambientais relevantes. A entidade defende maior transparência, regulação e participação efetiva das comunidades nos processos decisórios, sobretudo diante da expansão acelerada desse tipo de infraestrutura no país.



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