O mercado brasileiro de carregadores para veículos elétricos vive uma fase de expansão acelerada, mas também de preocupações com a qualidade técnica das instalações. Para o CEO da Eletricus, Evandro Mendes, que participou como palestrante do congresso Power2Drive South America no dia 28 de agosto, o setor pode repetir os mesmos erros do segmento de geração solar distribuída, no qual, na sua avalição, mais de 90% dos projetos apresentam falhas de engenharia.
Segundo ele, muitos integradores que antes atuavam com kits fotovoltaicos agora migraram para a mobilidade elétrica, sem o devido preparo técnico. “Instalar um carregador pode parecer mais simples que um sistema solar, mas os conceitos de engenharia são críticos: circuitos ficam estressados por horas, há altas potências e harmônicas nos modelos de CC, e fatores como queda de tensão e dimensionamento de cabos precisam ser respeitados”, afirmou em entrevista à FotoVolt.
Mendes alerta que a negligência leva a riscos graves. Entre eles, cabos de baixa qualidade ou fora da norma, disjuntores sem ajuste para a temperatura ambiente e conexões malfeitas, que aumentam a chance de aquecimento e incêndio. “Grande parte dos problemas registrados vem de más instalações, não do equipamento em si”, destacou.
O executivo lembra que há casos de recarga interrompida em poucos minutos devido a falhas no dimensionamento. “Muita gente acha que basta apertar o parafuso do disjuntor, mas tanto o aperto excessivo quanto o insuficiente causam aquecimento e risco de falha.”
Essa realidade se soma a um novo desafio: as diretrizes nacionais do Corpo de Bombeiros, que devem ser incorporadas como normas estaduais, divulgadas no início desta semana. Para Mendes, a abordagem mira o alvo errado. “Carros elétricos têm risco 63 vezes menor de incêndio que veículos a combustão, e bons carregadores possuem sistemas de segurança. O maior problema é a instalação elétrica, que está ficando de fora do foco regulatório.”
Ele argumenta que a competência legal para avaliar equipamentos é do Inmetro, não dos Bombeiros. A tentativa de restringir carregadores portáteis (modo 2) em áreas cobertas e limitar a permissão apenas os modos 3 e 4 (wallboxes) é, em sua visão, tecnicamente injustificada. “Há portáteis mais seguros que muitos wallboxes no mercado. Não faz sentido proibir pela categoria, e sim exigir certificação e fiscalização.”
Outro ponto de crítica é o impacto econômico sobre condomínios. As diretrizes sugerem que os prédios passem a oferecer infraestrutura para todas as vagas, e não apenas para as que já contam com pontos de recarga, com sprinklers e outras exigências caras. “Isso pode se tornar inviável em edifícios com limitações estruturais ou de espaço. A responsabilidade acaba recaindo sobre os condomínios, encarecendo e até desestimulando o mercado”, avaliou.
Na visão do CEO, esse cenário pode “queimar o filme” do carro elétrico, afastando consumidores pela percepção de complexidade e alto custo. “Quando se cria medo em torno da tecnologia, o avanço do setor fica comprometido.”
Com seis anos de operação e mais de 2 mil pontos de recarga instalados no país, a Eletricus aposta em uma abordagem completa, que vai do projeto elétrico ao pós-venda. Mendes defende que esse modelo integrado ajuda a reduzir riscos e custos, além de dar mais confiança ao consumidor.
Para ele, a solução definitiva passa por um plano nacional de infraestrutura de recarga, inspirado no que foi feito nas telecomunicações nos anos 2000. “Sem diretrizes claras, orçamento e fiscalização séria, ficaremos no improviso, enquanto outros países avançam na eletrificação da mobilidade.”
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