A Aprecomm, empresa indiana especializada em soluções de redes autorreparáveis baseadas em IA para mercados emergentes, está ampliando sua presença no mercado brasileiro com uma plataforma de IA - Inteligência Artificial voltada à gestão e otimização de redes Wi-Fi de provedores de Internet. A estratégia inclui integração do software com fabricantes de equipamentos, parcerias com provedores e distribuidores locais e a possibilidade de gerenciamento de uma base heterogênea de CPEs, inclusive equipamentos Wi-Fi 5 e Wi-Fi 6 já instalados.
Recém-adquirida pela Airties, fornecedora global de software de conectividade para grandes operadoras, a companhia pretende atingir inicialmente 500 mil residências no Brasil e chegar a 4 milhões de conexões ativas nos próximos 24 meses. A América Latina, tendo o Brasil como principal mercado, deverá responder por 30% a 40% da receita global da Aprecomm nesse período, segundo Pramod Gummaraj, fundador e CEO global da empresa.
A companhia vê no mercado brasileiro uma oportunidade semelhante à encontrada na Índia, onde afirma ter alcançado participação de aproximadamente 20%. Um dos fatores considerados pela empresa é a fragmentação do mercado nacional, formado por milhares de provedores regionais que utilizam equipamentos de diferentes marcas e modelos.
Um dos pontos centrais da estratégia é evitar que a adoção da plataforma exija necessariamente a substituição dos roteadores instalados. De acordo com Gummaraj, a solução é agnóstica em relação ao fabricante e está em conformidade com padrões como TR-069, TR-369 (USP), TR-98, TR-143 e TR-181. A empresa informa integração com mais de 200 modelos de CPEs de mais de 55 fabricantes globais.
A possibilidade de aproveitar a base instalada é particularmente relevante para os provedores que trabalham com diferentes fornecedores de CPEs. “A solução foi projetada especificamente para a realidade de mercados emergentes e fragmentados como o Brasil, onde os provedores operam com dezenas de marcas e modelos de roteadores”, diz Gummaraj.
A atualização de dispositivos em campo pode ser realizada pela nuvem, desde que sejam atendidos os requisitos aplicáveis de memória e processamento. A forma de integração varia de acordo com o produto da Aprecomm. No VNE - Virtual Network Expert, por exemplo, não há necessidade de recursos adicionais de CPU ou memória no CPE, uma vez que a integração é realizada com a OLT por meio de SNMP e NETCONF.
No VCS - Virtual Customer Support, o fabricante integra ao firmware do CPE um agente baseado em TR-069/TR-369. Já o VWE - Virtual Wireless Expert emprega um agente no próprio CPE. Segundo a empresa, nesse último caso o software utiliza de 1% a 10% do clock do núcleo da CPU e entre 5 MB e 25 MB de memória, dependendo da quantidade de clientes Wi-Fi conectados.
No Brasil, uma das parcerias estabelecidas é com a Think Technology. O software pode ser incorporado de fábrica ao firmware dos novos equipamentos ou utilizado em dispositivos compatíveis já em operação. Os modelos Think AX-3000 e AX-3000V estão entre os contemplados pela parceria. A Aprecomm afirma possuir aproximadamente 15 dispositivos de diferentes fabricantes certificados e considerados relevantes para o mercado brasileiro.
A plataforma utiliza IA tanto para executar ajustes automáticos na rede Wi-Fi quanto para diagnosticar problemas cuja origem esteja fora do ambiente sem fio residencial.
O sistema monitora indicadores de qualidade de experiência no nível das aplicações, considerando situações como videochamadas, streaming e jogos online. Ao detectar degradação do desempenho, interferência ou queda de sinal, a plataforma pode executar automaticamente ações no roteador.
Entre as intervenções estão a troca dinâmica de canais, ajustes da potência de transmissão e o band steering, que direciona os dispositivos entre as bandas disponíveis de acordo com as condições da rede. “Quando o sistema detecta degradação de desempenho, interferência ou quedas de sinal, ele executa ajustes automatizados em tempo real diretamente no roteador”, explica o executivo.
Nem todos os problemas, entretanto, podem ser corrigidos dessa maneira. Quando a causa está fora do domínio do Wi-Fi residencial, como atenuação óptica na fibra, problemas em portas OLT/PON, falhas de cabeamento ou limitações relacionadas ao plano de acesso contratado, a plataforma passa a atuar principalmente no diagnóstico.
Nesse caso, as soluções AIVRA e VNE são utilizadas para identificar a possível causa-raiz e fornecer informações às equipes de NOC e de atendimento do provedor. A proposta é permitir que parte dos problemas seja solucionada remotamente e reduzir o envio de técnicos a campo.
A Aprecomm associa a automação da gestão do Wi-Fi principalmente à redução das despesas operacionais dos provedores. A companhia reporta, em sua base global, redução de até 62% nas visitas técnicas, melhoria de 35% na resolução de problemas no primeiro contato e diminuição de 30% no tempo de atendimento do suporte. Os índices são benchmarks globais e ainda não podem ser atribuídos às operações brasileiras. A implantação na operadora NicNet, uma das parceiras da Aprecomm no país, por exemplo, é recente e ainda não dispõe, segundo a companhia, de uma amostra suficientemente representativa para divulgação de indicadores.
A Aprecomm afirma, contudo, ter observado em implantações e testes locais redução de até 60% nas chamadas de suporte e melhora de até três vezes na velocidade percebida pelos assinantes. A empresa também cita a Petcom, onde a implantação do VCS teria eliminado visitas de campo consideradas desnecessárias. Além de NicNet e Petcom, a companhia informa atender a IPNET no Brasil.
No mercado internacional, um dos casos apresentados pela Aprecomm é o do provedor indiano Excitel, que ultrapassou 1 milhão de clientes utilizando o Virtual Wireless Expert. É nesse conjunto de operações globais que estão baseados os indicadores de redução de visitas e melhoria do atendimento divulgados pela companhia.
Além das vendas diretas para médios e grandes provedores, a estratégia de expansão brasileira prevê fabricantes de equipamentos, associações e distribuidores como canais para atingir um mercado pulverizado.
O modelo comercial é baseado em software como serviço (SaaS), com assinatura por residência/ano, e prevê também contratos no formato pay-as-you-grow, no qual o custo acompanha a expansão da base. Os parceiros poderão comercializar tanto licenças de software integradas aos serviços dos provedores como soluções completas que combinem a plataforma com equipamentos de fabricantes certificados.
Entre os parceiros informados pela companhia no Brasil estão OpenGlobe, Route 66, Think Technology e WMG Distribuidora.
A NicNet também participa da estratégia inicial de expansão. A solução fornece ao provedor informações sobre a rede Wi-Fi e indicadores de qualidade de experiência em tempo real no nível das aplicações. A expectativa da Aprecomm é utilizar essa visibilidade para reduzir chamadas ao suporte e intervenções técnicas, embora a companhia ressalte que a implantação ainda é recente para permitir a apresentação de resultados consolidados.
A aquisição da Aprecomm pela Airties acrescentou uma nova dimensão à estratégia da companhia. As duas empresas devem manter focos comerciais distintos, porém complementares. A Airties continuará concentrada principalmente nas operadoras Tier 1 e grandes grupos de telecomunicações, enquanto a Aprecomm atuará como subsidiária direcionada a mercados emergentes e aos provedores regionais.
A empresa também relaciona a estratégia à futura migração para o Wi-Fi 7. No curto prazo, entretanto, o foco está em melhorar o desempenho da infraestrutura existente. A ideia é utilizar software e inteligência artificial para otimizar os equipamentos Wi-Fi 5 e Wi-Fi 6 instalados, adiando, quando possível, a necessidade de substituição dos CPEs.
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