A aproximação entre os ecossistemas digitais do Brasil e da China ganhou um novo capítulo no dia 24 de junho, em São Paulo, com a assinatura de uma carta de intenções entre o Shanghai Municipal Data Bureau, a BDO China e a BDO Brasil. O documento estabelece uma cooperação voltada ao desenvolvimento de negócios digitais, à atração de investimentos e ao fortalecimento das relações empresariais entre os dois países.

A assinatura ocorreu durante uma missão organizada pelo governo municipal de Xangai, que trouxe ao Brasil uma delegação formada por mais de 20 empresas chinesas de tecnologia e economia digital interessadas em conhecer o ambiente de negócios brasileiro e identificar oportunidades de investimento e parceria com empresas locais. Segundo os organizadores, a iniciativa também pretende estimular o movimento inverso, incentivando companhias brasileiras a expandirem suas operações para a China, especialmente para Xangai.

O diretor-geral do Shanghai Municipal Data Bureau, Shao Jun, destacou que Brasil e China possuem características complementares na economia digital e podem enfrentar conjuntamente desafios relacionados à inteligência artificial, soberania digital e transformação produtiva.

Segundo ele, empresas chinesas já acumularam experiência em projetos de transformação digital e podem contribuir com o desenvolvimento tecnológico brasileiro em áreas como infraestrutura digital, indústria inteligente, agricultura, saúde e cidades inteligentes. O executivo citou exemplos de investimentos chineses já realizados no país, como a implantação de redes de fibra óptica pela Huawei na Amazônia, o data center da Tencent em São Paulo e a fábrica inteligente da BYD na Bahia.

“Vamos continuar apoiando as empresas digitais de Xangai que desejam desenvolver negócios e colaborar no Brasil. Ao mesmo tempo, damos as boas-vindas às empresas brasileiras para investir, abrir negócios e expandir seus mercados em Xangai”, afirmou Shao Jun.

A missão empresarial foi organizada com apoio da Shanghai Data Service Provider Association, entidade que reúne empresas do setor de dados na China. Seu diretor executivo, Yong Lu, explicou que o principal objetivo da visita foi criar uma plataforma permanente de aproximação entre empresas chinesas e brasileiras.

Segundo ele, as companhias chinesas participantes já possuem elevada maturidade em tecnologias digitais e buscam compartilhar esse conhecimento com parceiros brasileiros, em um momento em que o país acelera sua transformação digital.

“Nós trouxemos empresas chinesas que querem expandir seus negócios, construir relacionamentos locais e trabalhar em conjunto com empresas brasileiras”, afirmou.

Entre as áreas identificadas como mais promissoras para cooperação estão telecomunicações, tecnologia da informação, data centers, infraestrutura de computação para IA, intercâmbio e compartilhamento de dados e mercados de dados. Yong Lu observou que a China desenvolve soluções nessa área há cerca de uma década e acredita que essa experiência poderá complementar os projetos que começam a ser estruturados no Brasil. “O Brasil vive o momento certo para desenvolver sua economia digital. Isso cria oportunidades mútuas para empresas brasileiras e chinesas”, destacou.

Para a BDO Brasil, a carta de intenções formaliza uma parceria que deverá facilitar investimentos e ampliar a segurança jurídica para empresas interessadas em atuar nos dois mercados. Segundo Raul Corrêa da Silva, chairman e CEO da BDO Brasil, a atuação conjunta entre BDO Brasil e BDO China permitirá oferecer suporte técnico, regulatório e tributário às empresas chinesas que pretendem investir no país.

“O Brasil possui uma legislação complexa. Quem chega a um ambiente desconhecido precisa de assessoria e segurança. É exatamente esse o papel que a BDO pretende exercer nessa parceria”, afirmou.

O executivo ressaltou que o crescimento dos investimentos chineses ao redor do mundo cria novas oportunidades para empresas brasileiras e que o fortalecimento da cooperação entre os dois escritórios da rede BDO poderá estimular novos negócios. A BDO é uma das maiores empresas de auditoria e consultoria do mundo, presente em 164 países. A BDO Brasil faz parte da rede BDO, presente em 164 países e com mais de 120 mil profissionais distribuídos em 1800 escritórios. Em 2024, registrou globalmente um faturamento de US$ 15 bilhões. “Nosso objetivo é aproveitar essas oportunidades, desenvolver negócios e contribuir para o crescimento econômico dos dois países”, disse.

Representando o Ministério das Relações Exteriores, o assessor especial para Inteligência Artificial, Guilherme Fitzgibbon, apresentou aos empresários chineses um panorama das políticas públicas brasileiras para IA, economia de dados e infraestrutura digital.

Segundo ele, o Brasil reúne características que tornam o país atrativo para investimentos de longo prazo em inteligência artificial e data centers, como matriz elétrica predominantemente renovável, estabilidade regulatória, mercado consumidor de grande porte e capacidade científica.

O assessor destacou que o governo trabalha na aprovação do programa Redata, voltado à atração de investimentos em data centers, além da construção de uma política nacional para a economia de dados e da regulamentação da inteligência artificial. “O Brasil quer ser um polo competitivo e soberano para data centers na América Latina”, afirmou.

Fitzgibbon acrescentou que aproximadamente 80% dos dados gerados pela indústria brasileira ainda não são utilizados economicamente e que a criação de ambientes seguros para compartilhamento de dados poderá abrir novas oportunidades de inovação.

Entre as áreas apontadas como prioritárias para cooperação bilateral estão infraestrutura para IA, computação de alto desempenho, desenvolvimento de modelos de código aberto, agricultura, saúde, logística, monitoramento ambiental e governança internacional de dados. “O Brasil procura parceiros que respeitem nossa soberania, nossas leis e nossas prioridades de desenvolvimento. A China pode ser esse parceiro”, concluiu.

Na foto, Raul Corrêa da Silva, CEO da BDO Brasil; Yong Lu, Diretor Executivo da Shanghai Data Service Provider Association; e Min Cai, National Head of Compliance da BDO China



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