O índice de 39,5% de perdas de água registrado no Brasil pode não revelar toda a ineficiência dos sistemas de abastecimento. Isso porque o indicador considera a distribuição, mas não contabiliza as perdas nas etapas anteriores de captação, adução e tratamento.
O alerta foi feito por Marcelo Tadeu Muniz Pereira, diretor de engenharia da G6 Vanguard, empresa especializada em engenharia e soluções para o setor de saneamento, durante o Encontro Técnico Aesabesp/Fenasan 2026, em São Paulo. Segundo ele, dados incompletos ou imprecisos podem comprometer os programas de redução de perdas.
O percentual nacional, referente a 2024, foi divulgado pelo Sinisa - Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico. Pereira observa que o balanço utilizado começa na saída das ETAs - Estações de Tratamento de Água, sem abranger todo o processo de produção. Na palestra, apontou que apenas 46% das ETAs forneceram informações sobre a medição de água bruta.
As lacunas também aparecem na distribuição. Segundo ele, cerca de 16% dos registros de macromedição são estimados, assim como 13% na micromedição. O especialista citou ainda uma diferença de 1,07 bilhão de m³ nos registros de transferências de água entre municípios, sem conciliação entre os volumes de saída e entrada. “Temos uma série de incertezas para falar de perdas e o nosso indicador de 39,5% pode ser ainda pior”, afirmou.
Na avaliação de Pereira, erros de medição distorcem os índices e podem levar à escolha de intervenções inadequadas. “Se não tiver medição confiável, não há número confiável e as nossas ações podem estar equivocadas”, ressaltou.
O diretor considera, por outro lado, um avanço a Norma de Referência nº 15/2025 da ANA - Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, que estabelece diretrizes para diagnóstico padronizado e planos de gestão de perdas na distribuição. A verificação de sua adoção pelas agências reguladoras infranacionais começará em 2028. Para ele, porém, a norma deveria incluir as perdas na produção e aprofundar critérios de calibração, incerteza das medições e auditoria dos dados. As agências locais poderiam estabelecer exigências complementares.
A Portaria nº 788/2024 do Ministério das Cidades estabelece, para acesso a recursos federais destinados ao abastecimento de água, limites de perdas na distribuição de 30% ou 263 L/ligação ao dia entre 2026 e 2032, passando a 25% e 216 L/ligação ao dia a partir de 2033. Municípios que não cumprirem esses parâmetros deverão comprovar iniciativas de redução e controle de perdas.
Pereira defende combinar medição confiável com gestão de pressão, controle ativo de vazamentos e planejamento da renovação de redes e equipamentos, evitando reparos sucessivos sem resultados duradouros.
Segundo estimativas apresentadas na palestra, reduzir as perdas a 25% permitiria economizar 2,6 TWh de eletricidade por ano e postergar investimentos de ampliação da produção. Para o especialista, recuperar a água já captada e tratada é uma das medidas mais eficazes para reforçar a segurança hídrica diante de períodos de seca.
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