O Canadá busca ampliar sua participação no mercado brasileiro de saneamento, aproveitando as oportunidades abertas pelos investimentos necessários ao cumprimento das metas de universalização dos serviços até 2033. Com uma delegação de 10 empresas, o país participou da Fenasan 2026, realizada de 20 a 22 de outubro, no Expo Center Norte, em São Paulo, apresentando tecnologias para tratamento de água e efluentes, desinfecção, reúso, controle de odores e sistemas descentralizados. A iniciativa também teve como objetivo aproximar fornecedores canadenses de concessionárias, indústrias e potenciais parceiros comerciais brasileiros.

Organizada pelo Serviço de Promoção Comercial do Governo do Canadá, por meio do Consulado-Geral em São Paulo, com apoio do Escritório do Québec na capital paulista, a missão contou com uma programação de reuniões de negócios e encontros setoriais. Entre as empresas participantes estavam tanto fabricantes já estabelecidos no mercado brasileiro quanto fornecedores interessados em iniciar suas atividades no país.

Segundo a cônsul-geral do Canadá em São Paulo, Joanne Lemay, o interesse canadense pelo setor brasileiro de saneamento não é recente. Ela destaca a presença de investidores institucionais do país, como Brookfield, CPP Investments e AIMCo, que mantêm participações em empresas do setor, entre elas BRK Ambiental e Iguá Saneamento.

Lemay observa que Brasil e Canadá compartilham características que favorecem a cooperação tecnológica, como a grande disponibilidade de recursos hídricos, a concentração populacional em grandes centros urbanos e a necessidade de atender comunidades localizadas em regiões remotas.

A diplomata também ressaltou os resultados positivos das reuniões realizadas durante a feira. “Já tivemos muitos encontros entre empresas e o retorno que recebemos das companhias canadenses é de que existe grande interesse das organizações brasileiras pelas soluções apresentadas”, afirmou.

De acordo com ela, a confiabilidade das tecnologias e a experiência acumulada por empresas canadenses em diferentes mercados contribuem para ampliar as oportunidades de negócios. A expectativa é que parte dos fabricantes presentes na Fenasan volte a participar de iniciativas comerciais no Brasil.

Outro fator que poderá favorecer a entrada de tecnologias canadenses no mercado brasileiro é a negociação de um acordo de livre comércio entre o Canadá e o Mercosul. O assunto foi destacado pelo embaixador canadense no Brasil, Eric Walsh, durante sua visita à Fenasan. Segundo ele, a eventual redução de tarifas de importação poderá ampliar a competitividade dos produtos canadenses e facilitar o acesso do mercado brasileiro a equipamentos e soluções tecnológicas desenvolvidos naquele país. “Estamos negociando um acordo de livre comércio entre o Canadá e o Mercosul. Isso representa uma oportunidade real de reduzir as tarifas sobre os produtos canadenses que entram no Brasil, beneficiando também os brasileiros”, afirmou. Walsh disse esperar que as negociações possam ser concluídas até o final de 2026 e classificou o avanço das tratativas como uma de suas prioridades diplomáticas.

O embaixador também destacou as semelhanças entre os desafios enfrentados pelos dois países na gestão de recursos hídricos e na prestação de serviços de saneamento. Segundo ele, as experiências canadenses podem contribuir para o desenvolvimento de soluções adequadas às condições brasileiras, especialmente em um país de grandes dimensões territoriais e com diferenças significativas entre as regiões.

As dez empresas integrantes da missão apresentaram soluções para diferentes etapas do tratamento de água e efluentes, incluindo tecnologias destinadas à modernização de instalações existentes e sistemas compactos para localidades sem acesso às redes convencionais.

Na área de tratamento biológico, a Bionest destacou sistemas para aplicações residenciais, comerciais e municipais, com ênfase em soluções descentralizadas. Já a Engineering and Technology Associates (ETA) apresentou tecnologias de lodo granular aeróbio e biorreatores de membrana aerada (MABR), destinadas ao tratamento de efluentes municipais e industriais e à ampliação da capacidade de estações existentes.

A Trojan Technologies participou com equipamentos de desinfecção por radiação ultravioleta e processos de oxidação avançada, utilizados no tratamento de água potável e efluentes, inclusive em aplicações de reúso e remoção de contaminantes.

A Acme Engineering Products levou sistemas automáticos de filtração autolimpante para captação de água, processos industriais e tratamento de efluentes. A Anfield Sensors apresentou instrumentos para monitoramento de pressão, vácuo, pressão diferencial e temperatura, enquanto a Breakwater Vantage destacou tecnologias para tratamento de contaminantes, como metais pesados, PFAS e hidrocarbonetos, além de ferramentas digitais para gestão de ativos e infraestrutura.

Outra participante, a EM Fluids, apresentou uma tecnologia de tratamento de água de baixo consumo energético, voltada a aplicações em grandes corpos hídricos, incluindo lagoas de tratamento de esgoto. A SciCorp International destacou uma formulação de micronutrientes de origem vegetal desenvolvida para melhorar o desempenho de processos biológicos de tratamento de efluentes e reduzir a formação de odores.

O controle de odores também esteve entre os segmentos contemplados pela delegação. A NeutraTek Odour Solutions apresentou sistemas baseados em fotoionização para tratamento de sulfeto de hidrogênio (H₂S) e outros compostos odoríferos em instalações industriais e municipais.

A Alpha Water, de São Bernardo do Campo, SP, representa várias marcas canadenses no Brasil e apoia a inserção das empresas no setor brasileiro, combinando tecnologias desenvolvidas no exterior com presença comercial no país e facilitando o atendimento aos clientes e a adaptação das soluções às condições locais. É o caso da PI² Technologies, especializada em tecnologias para controle de odores e tratamento de efluentes. Fundada em 2011, a empresa estabeleceu uma subsidiária em São Bernardo do Campo, SP, em 2024, e vem ampliando sua atuação no mercado brasileiro. Seu presidente, Leif Dahlberg, destaca que a companhia desenvolve sistemas passivos, projetados para operar com baixa necessidade de manutenção, sem consumo de energia elétrica e sem utilização de produtos químicos em determinadas aplicações. “Temos sistemas de controle de odores e de tratamento de efluentes que são completamente passivos e podem ser muito bem adaptados às áreas rurais, que representam uma parcela importante do território brasileiro”, afirmou durante a Fenasan. O executivo ressaltou o apoio recebido do governo canadense no processo de entrada no mercado brasileiro e informou que parte da fabricação de seus produtos já é realizada localmente, com o objetivo de reduzir os prazos de fornecimento.

Para o governo canadense, a participação na Fenasan faz parte de uma estratégia mais ampla de cooperação tecnológica e comercial com o Brasil. Além de apoiar a entrada de fornecedores no mercado nacional, o Serviço de Promoção Comercial busca estimular parcerias de inovação, transferência de tecnologia e investimentos entre empresas dos dois países. A expectativa é que a expansão dos serviços de saneamento no Brasil, associada ao eventual avanço do acordo comercial com o Mercosul, crie condições para ampliar essas parcerias nos próximos anos.

Na foto, da esquerda para a direita: Leif Dahlberg, presidente da PI² Technologies; Gilmar A. Pires, diretor da Alpha Water; Joanne Lemay, cônsul-geral do Canadá em São Paulo; Eric Walsh, embaixador canadense no Brasil.



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