Enterramento de fios e cabos pode ampliar a demanda por resinas e aditivos


Anunciada recentemente, a substituição da fiação aérea pela subterrânea para transmissão de energia e de dados na cidade de São Paulo poderá dar mais impulso à indústria de fios e cabos, e por conseguinte, a toda a cadeia envolvida na sua fabricação.


Hellen Souza e Adalberto Rezende, da redação

Data: 10/09/2017

Edição: Hydro Setembro 2017 - Ano 32 - No 229

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Ilustração mostra exemplo de configuração de revestimento de cabo elétrico fornecido pela Induscabos que pode ser submetido ao aterramento: 1) condutor de alumínio; 2) blindagem composta de material termofixo; 3) isolação confeccionada em polietileno reticulado (XLPE 90 °C); 4) camada de termofixo; 5) blindagem metálica; 6) separador não higroscópico de poliéster; e 7) cobertura de cloreto de polivinila (PVCST2)

A Prefeitura do Município de São Paulo anunciou no mês de agosto o estabelecimento de um acordo com a Eletropaulo e as empresas de telecomunicação atuantes na cidade, prevendo a substituição da fiação aérea pela subterrânea em pelo menos 117 ruas até julho do ano que vem.

Isso implicará de imediato a instalação de 52 km de fios e cabos, além da remoção de 2019 postes, com consequências diretas sobre a demanda pelos produtos necessários a essas operações, muitos deles fornecidos por empresas que processam materiais plásticos.

O impacto inicial pode não ser tão representativo, mas tendo em vista que a medida prevê o enterramento de 100 quilômetros de fios e cabos ao ano, e que ela abre o precedente para que outros municípios adotem a mesma determinação, pode estar surgindo mais uma janela de negócios tanto para empresas já estabelecidas quanto para as que cogitam a possibilidade de vir a atuar no setor.

A disputa judicial que envolve a decisão se desenrola desde o ano de 2005, quando o então prefeito José Serra sancionou uma lei obrigando as concessionárias a enterrarem todos os fios e cabos da cidade. Recurso após recurso, a lei acabou não surtindo efeito. Dez anos mais tarde foi a vez de Fernando Haddad exigir que 250 km de fiação aérea fosse substituída por subterrânea, também sem sucesso, devido a uma liminar impetrada a pedido do sindicato das empresas do setor de serviços. Agora, a negociação prevê a instalação gradativa, mas ininterrupta, da fiação subterrânea, sendo os iniciais 52 km apenas o ponto de partida.

As vantagens e restrições apresentadas pelos materiais poliméricos comumente usados para revestir condutores elétricos feitos de cobre (à esquerda) ou de alumínio (à direita), assim como a aplicação de aditivos para inibir a ação de intempéries e a categoria dos cabos, devem ser consideradas no projeto da instalação

Valdemir Romero, do Sindicato das Indústrias de Condutores elétricos (Sindicel), classifica a medida como favorável, ponderando que embora a instalação subterrânea não seja algo novo, o setor vai se beneficiar dela a longo prazo e qualitativamente, com a maior fiscalização da qualidade dos fios e cabos por meio de programas como o Qualifio, da Associação Brasileira pela Qualidade dos Fios e Cabos Elétricos, que coíbe a utilização de fios e cabos fabricados fora das especificações.

Requisitos técnicos para fabricação de revestimento de cabos

O revestimento de condutores elétricos destinados ao aterramento deve ser confeccionado com materiais plásticos que atendam aos requisitos mecânicos, físicos e químicos postulados pelas normas técnicas vigentes para produtos desta classe. As diretrizes consistem, por exemplo, na determinação de valores de alongamento e tensão do material polimérico utilizado, bem como da sua higroscopicidade, resistência ao calor, à abrasão e à ação de ozônio (O3).

No caso da capa externa dos cabos, é necessário que ela possua propriedades que lhe permitam inibir ou retardar a degradação de sua superfície, que pode ser causada por umidade, erosão e ataque de agentes químicos, principalmente se for submetida ao contato direto com o solo.

Entretanto, isso pode ser evitado por meio do acondicionamento dos cabos em dutos. Em ambos os casos, é importante que o plástico utilizado possua aditivos para repelir insetos e animais habitantes do meio subterrâneo como, por exemplo, cupins e roedores, bem como para evitar a oxidação. O material de isolamento dos condutores, na parte interna dos cabos, deve ter propriedades dielétricas e ser resistente à umidade.

Materiais poliméricos que podem ser utilizados

Os plásticos comumente usados na fabricação de revestimento de condutores elétricos são policloreto de vinila (PVC), polietileno (PE) e o polietileno reticulado (XLPE). Entretanto, é importante avaliar as propriedades de cada um deles considerando as condições às quais serão submetidos.

No caso de cabos para média tensão (1 a 35 kV) não é recomendado o uso de PVC. Apesar de sua boa processabilidade e resistência à chama, ele possui cloro em sua composição, o que pode levar à geração de gases tóxicos em caso de incêndio, conforme explicou o engenheiro de aplicações Eduardo Blauth, que atua na Induscabos (São Paulo, SP). De acordo com ele, uma alternativa é o uso de XLPE, que tem maior resistência térmica que o PVC, ao passo que a borracha etileno-propileno (EPR) também é indicada para este tipo de aplicação, suportando temperaturas de até 105 °C em regime contínuo.

Condições para o aterramento

A instalação de linhas de transmissão de energia subterrâneas abrange o planejamento do seu trajeto, preparo do substrato e licenciamento, conforme a classificação da área a ser trabalhada. Em âmbito geral, recomenda-se que a profundidade das valas não seja superior a 1 m, sendo a sua largura determinada conforme as dimensões dos fios, cabos e/ou dutos que nelas serão dispostos.

No que diz respeito a projetos voltados para centros urbanos, é requerida uma análise de eventuais interferências no sistema de transmissão – o qual deve ser o mais retilíneo possível – como, por exemplo, redes de esgoto, vias públicas, edificações e vegetação.

Ataque de roedores, uma preocupação da indústria de fios e cabos que pode ser resolvida com o uso de aditivos na formulação dos compostos

A visão dos fabricantes

Para João Carro Aderaldo, diretor da unidade de energia da italiana Prysmian (Santo André, SP), fabricante de fios e cabos elétricos, o processo de enterramento na cidade de São Paulo terá um importante efeito sobre a indústria quando forem definidos os cronogramas para as redes de transmissão de energia em média e alta tensão, considerando que o primeiro pacote da medida contempla apenas os cabos para telecomunicações. “Este impacto se dará inclusive do ponto de vista imobiliário, já que atualmente algumas redes limitam a ocupação de áreas com grande potencial de valorização”, afirmou. Além disso, será óbvio o benefício em termos de durabilidade das redes de transmissão, tendo em vista que a fiação subterrânea sofre menos danos relacionados a intempéries, quedas de árvores, acidentes etc.

A empresa dispõe de grandes volumes de cabos em estoque para instalação das redes elétricas, e a necessidade de manutenção preventiva das redes subterrâneas poderá, além de aumentar, tornar essa demanda mais previsível. A Prysmian atende atualmente a dois grandes projetos de enterramento de fiação da Eletropaulo e tem mais dois previstos para 2018. Porém, o número de iniciativas em outras localidades do País ainda é pouco significativo.

No caso dos fabricantes de fios e cabos de telecomunicações, a demanda que deve surgir inicialmente com a determinação da Prefeitura de São Paulo pode não ser muito expressiva, mas tende a se tornar mais importante na medida em que o programa passar a dispor de uma programação regular para a instalação e manutenção.

Para a Furukawa, por exemplo, com unidade fabril em Curitiba (PR), que produz atualmente 2 milhões de quilômetros de cabos de fibra óptica ao ano, o volume a ser consumido na cidade não implicaria mudança alguma nas rotinas de fabricação, tendo em vista que a quantidade é praticamente disponível em estoque e que a empresa já pesquisa há tempos a aditivação para que os materiais resistam ao ambiente subterrâneo.

“Os aditivos para evitar a ação de roedores que já testamos atribuíam um odor desagradável aos cabos, repelindo ratos, no caso de cabos subterrâneos, e esquilos, no caso de fiação aérea. Porém, o odor permanecia apenas por dois anos, o que é pouco, se levarmos em conta a vida útil dos cabos, que é de 30 anos”, afirmou Antonio Carlos Silva, gerente de produto da empresa. Por esta razão, a solução adotada para aumentar a durabilidade dos produtos foi o uso de fibra de vidro entre as capas que revestem os cabos, e eventualmente o seu encapsulamento com uma fita de aço.

A questão, no entanto, tem uma resposta da indústria de aditivos. A Res Brasil (Valinhos, SP), que representa a britânica Symphony, fabricante da linhas de masterbatches contendo aditivos anti-roedores d2pRR, realiza o atendimento individualizado e encaminha os casos de clientes para os laboratórios da sua representada, de modo a desenvolver o concentrado indicado com tempo de vida útil igual ou muito próximo ao do produto em que ele será usado. Projetos da área de embalagens, por exemplo, exigem menos durabilidade do que os do setor de fios e cabos.

Os agentes da linha d2pRR possuem estabilidade térmica até 250 ºC, podendo ser facilmente dispersos no composto plástico a ser extrudado. Os efeitos que inibem os roedores são irritação dermatológica e sabor extremamente amargo, promovido por ingredientes ativos que não alteram a matriz polimérica. A vida útil dos aditivos varia de 5 a 30 anos.

A norte-americana PolyOne, com subsidiária em Itupeva (SP), também comercializa uma linha de concentrados de aditivos que impedem a ação de roedores, pássaros, insetos e cupins e podem ser incorporados tanto a fios e cabos quanto tubos e dutos para a sua condução. Denominada OnCap, a linha possui boas características de dispersão.

Mesmo que a indústria de fios e cabos se considere suficientemente preparada para uma eventual demanda extra, não custa manter em mente que, caso a medida adotada em São Paulo sirva de exemplo para outros municípios, poderá surgir um contexto que exija ainda mais fôlego do setor. Tomara que isso aconteça nos próximos anos, para o bem das cidades.